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De Excelente a Não Suficiente?

O bem-estar emocional e o sucesso futuro da sua criança é importante para si? Mesmo importante? A ponto de questionar, talvez trocar, algumas crenças em que porventura acreditou? Está disponível a fazer outras escolhas que lhe façam sentido?

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Neste artigo, abordarei alguns comportamentos e dinâmicas, partilhando a minha perspectiva e outra escolha. O que partilho é por estar cada vez mais desperto, especialmente depois de ter feito formação em Parentalidade Consciente. Convido-a a observar qual o impacto dos mesmos na criança, na expressão do potencial dela e no seu bem-estar.

 

Imagine que descobre outra forma de se relacionar com a sua criança, em que ela e você estão ótimas… mesmo quando discordam e ela ou você ou as duas se passam da cabeça! Mas têm a relação de proximidade, amor, respeito mútuo e o que exatamente deseja, ambas a sentirem-se amadas independentemente do que aconteça.

 

Entretanto, já passou quase um mês desde o início do ano. Também desde o regresso à escola, aos testes ou exames. Repare como, nos contextos e famílias que conhece, esta altura do ano tende a ser, mais ou menos, “receada” por bastantes crianças. Podem até sentir alegria por voltarem à escola, reverem os colegas e amigos que não viam há algum tempo, mas quando começam a ouvir que “têm de estudar”…

 

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Se a criança teve “boas notas” (o que é isso concretamente? – podemos perguntar), pode receber a pressão de “ter de” continuar a tirar boas notas. Se a criança teve “más notas” (o que é isso mesmo?), o mais certo é receber a pressão extra de “TENS DE” estudar mais! Fazer mais exercícios! “Vou-te pôr na explicação mais horas!”, ou… “Agora TENHO DE te pôr na explicação! Só dás é despesa…”. Qual é a sua intenção? Como mãe, avó, tia, irmã, educadora, modelo humano que influencia e interage com uma criança/adolescente? Voltaremos aqui.

 

Permita-me dizer que não, não quero neste texto aferir a validade dos processos de avaliação e atribuição de notas no sistema de ensino tradicional, por onde a larga maioria das crianças ainda passa. Isso seria um outro texto e daria uma longa conversa. Quero apenas chamar a sua atenção para a forma como a sua criança pode estar a receber a pressão que lhe chega de fora. A pressão de “ter de” tirar boas notas; ou de não tirar más notas (o que já agora é uma forma bem ineficaz de definir um objetivo com a criança); ou de estar à altura do irmão, da prima ou de você quando estudou. No fundo, a um nível inconsciente, acredito, a pressão de se sentir suficiente. Ou, nalguns casos, a pressão de se sentir suficiente ao tentar ser excelente.

 

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Vejamos, se a criança estiver a ter notas excelentes, pode ouvir algo como, por exemplo: “não faz mais do que a obrigação dela” – pressuposto de que é obrigação estudar e expectativa dos pais/modelos/heróis em que ela cumpra essa obrigação; ou, “podia ter feito melhor/podia ter acertado mais” – pressuposto de que aquilo que fez, por muito bom que tenha sido, não foi suficiente…

 

Por outro lado, se a criança está com notas abaixo da expectativa dos pais… podem surgir comentários como “andas com a cabeça no ar. Só queres é brincadeira/telemóvel/… Olha que isso acaba-se num instante!” – pressupostos de que a criança tem estado distraída e isso será motivo para as notas que teve, de que não quer estudar e de que não pode não querer estudar!; ou, “é sempre a mesma coisa! Depois quando fores mais velha, com essas notas, quero ver que emprego é que arranjas!” – pressupostos de que a criança é sempre assim (e assim, incapaz de mudar) e de que para arranjar emprego terá que ter determinadas notas.

 

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Há muito que os estudos e observações práticas sobre Inteligência Emocional revelam que, para alcançar sucesso consistente, mais importante do que as notas é a Inteligência Emocional da pessoa. A sua capacidade de reconhecer, gerir e lidar com o que sente, independentemente do que lhe acontece. Não será já hora de começarmos a guiar as nossas crianças a desenvolverem a sua Inteligência Emocional? Como? Bem… dando o exemplo.
Por hoje fico por aqui, partilhando abaixo algumas questões. Escolhendo uma opção em cada pergunta, reflita dentro de si, qual escolhe?

Quero dar atenção às notas da minha criança ou à forma como ela se sente?

Quero que a minha criança tenha boas notas ou que tenha uma boa auto-estima?

Quero que a minha criança seja reconhecida pelos outros ou que esteja feliz?

Quero ajudar a minha criança a decidir ou que ela descubra como decidir o melhor para ela?

Quero ajudar a minha criança a ser responsável ou que ela desenvolva a capacidade da auto-responsabilidade?
Quero notar as notas ou notar a criança?

Quero que aprenda exatamente como os outros ou que tenha curiosidade, descubra o que é ótima a fazer e se sinta bem a aprender em qualquer momento na vida?

Quero protege-la dos seus medos e eventuais cenários futuros ou quero que desenvolva as capacidades de se adaptar e lidar saudavelmente com qualquer medo ou obstáculo?

Quero que ela seja Excelente (sempre? em tudo?) ou que, independentemente do que faça e resultados que obtenha, ela sinta que é Suficiente?
E eu, sou suficiente? Como mãe, avó, educadora? Será que a forma como lido com a minha criança e as notas que ela tira, diz mais sobre ela e a sua capacidade de estudar ou sobre mim e o meu medo de… sentir que não estou a ser suficiente?…

 

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