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Culpados ou vítimas? Como arrumar as ‘gavetas’ depois dos abusos sexuais?

Um testemunho anónimo de uma vítima de abusos sexuais que quer deixar uma mensagem a quem passa ou passou pelo mesmo. A 22 de fevereiro, assinala-se o Dia Europeu da Vítima.

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Muito se poderia dizer sobre este tema… Clichés, frases retiradas de livros de autoajuda, frases bonitas de quem apenas conhece as experiências através do “pois eu compreendo”… Mas, mais do que tudo isso, com este texto quero apenas ajudar as vítimas (sim somos vítimas não somos culpados) a entender que é possível superar! Aquilo que une todos os que passamos por isto é: o silêncio VS a dor.

 

“É melhor não dizer nada…”; “E se eu contar….”; “Não quero que mais ninguém sofra…”; “Tenho vergonha…”; “Tenho medo….”; “Isto um dia vai terminar….”. Tudo isto até tem o seu fundo de verdade…  Mas e as consequências? As marcas? As inseguranças que perpetuam em nós? O desacreditar na vida? A perda do amor próprio? Por tudo isto e muito mais não podemos “calar-nos”, ao nosso sofrimento e ao dos outros.

 

Seja um menino, uma menina, seja quem for, nós temos de deixar de silenciar a dor! O violador quer sempre que pensemos “A culpa é tua”, “isto aconteceu porque tu….”, “Mas tu é que…”… STOP! Não! Nós não somos culpados disto! A violação da intimidade de qualquer pessoa, mas sobretudo de uma criança é energúmeno, é nojento, é desumano, é sobretudo um ROUBO. Um roubo da integridade, da dignidade, da essência de um ser humano.

 

Faz pouco tempo, numa telenovela dum canal generalista, abordou-se o tema dos abusos sexuais no masculino (e que tão importante é falar disto sem medos, sim, porque o medo, o silêncio, foi o que nos levou a sofrer na nossa bolha). Seja no Masculino, no Feminino, isto não pode acontecer. Normalmente isto acontece com quem está no nosso meio, família, amigos…. Se conhecem, desconfiam de casos assim, DENUNCIEM! As consequências de uma violação podem ser, em alguns casos, irreversíveis.

 

Muitas vezes, os pais, avós, amigos, familiares, de outras gerações não tinham recursos, não tinham meios, não tinham estrutura para encarar algo deste género. Às vezes, a dor de pensar que “será que é verdade?” suplantou-se ao denunciar uma situação tão horrenda. Não culpemos quem não denunciou a um certo momento, mas façamos disto um “wake up call” para ajudar-nos a entender que hoje, hoje, é possível tão mais fácil denunciar.

 

Mas… Como “arrumar” as “gavetas” depois dos abusos sexuais? 

Primeiro que tudo, perdoar quem lhe fez mal. Sim parece cliché, parece impossível, mas não, não é! Perdoar é uma arma ultrapoderosa para nos reconstruirmos. Perdoar e “esquecer” quem nos fez mal é o primeiro passo para avançar. Sim é difícil perdoar quem condicionou a nossa sexualidade, a nossa virgindade, a nossa “pureza”, a nossa dignidade, a nossa linguagem corporal, os nossos sonhos, os nossos desejos, os nossos impulsos e tantas, tantas outras coisas. Mas, sim, é possível perdoar.

 

Segundo, perdoar-se a si mesmo. Muitas vezes, seguido de semanas, meses, anos de sofrimento temos a tendência a “MAGOAR-NOS”. Física, emocional, psico e socialmente. É legítimo? Talvez. Mas, temos de perdoar-nos, respeitar-nos e avançar. Quase tudo, se não tudo, foram consequências de algo que não escolhemos viver.

 

Terceiro, rodear-se dos “seus”! A família que escolhemos (os amigos), a família de sangue … Os que estão do nosso lado ajudam-nos a ser melhores, mas eles também são melhores connosco, todos ganhamos..

 

O escritor Pedro Rodrigues disse “Somos casas. Quem está de fora, não sabe o que se passa dentro das nossas paredes. Às vezes, há quem entre e veja todas as fissuras e imperfeições. Então há os que fogem a sete pés, com medo de que o teto caia. E os que ficam: na esperança de um dia morarem em nós.”

 

E que palavras tão certas. Falar com um “núcleo duro” (os que querem morar em nós) sobre as nossas “coisas” é tão, tão, tão importante! Mas atenção, escolha quem “deixa entrar na sua casa”.

 

Quarto, ajuda de profissionais. Uma boa psicoterapia dedicada aos traumas da infância vai dar-nos recursos, “instrumentos”, “exercícios” para arrumar as “gavetas”.

 

Sim é possível, pois como dizia um escritor francês chamado Albert Camus: “No meio do caos, descobri que havia, dentro de mim, uma calma invencível. E, finalmente descobri, no meio de um inverno, que havia dentro de mim um verão invencível. E isso faz-me feliz. Porque isso diz-me que não importa a força com que o mundo se atira contra mim, pois dentro de mim, há algo mais forte – algo melhor, empurrando de volta. “

 

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