Home»ATUALIDADE»ENTREVISTAS»Cuidados paliativos: «A rede não está preparada, nem em quantidade de recursos estruturais, nem de financiamento, nem de competências profissionais»

Cuidados paliativos: «A rede não está preparada, nem em quantidade de recursos estruturais, nem de financiamento, nem de competências profissionais»

A 14 de outubro, assinala-se o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos. Manuel Luís Capelas, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, conta-nos como este é um serviço obrigatório, em falta em muitos hospitais e que serve apenas 2% de quem deles necessita. São serviços cada vez mais procurados, mas que não estão preparados para toda esta pressão.

Pinterest Google+

A 14 de outubro, assinala-se o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos. Em Portugal, quem presta estes cuidados?

Estes cuidados podem ser prestados por qualquer profissional de saúde, desde que tenha formação e capacitação específicas para tal, consoante o nível de diferenciação dos cuidados (ação paliativa, cuidados paliativos generalistas, cuidados paliativos especializados e centros de excelência). Os dois últimos devem ser prestados em equipa interdisciplinar. Podem e devem estar inseridos em qualquer tipologia de instituição e serviços, nos diferentes níveis do Sistema e Serviço Nacional de Saúde.

 

O que são exatamente cuidados paliativos e a quem são prestados?

Tanto os cuidados paliativos como os direitos humanos são baseados nos princípios da dignidade da pessoa, da universalidade e não-descriminação, em que na Carta dos Direitos Humanos está claramente referenciado que se deve respeitar o direito à saúde, permitindo a equidade de acesso a todas as pessoas, incluindo prisioneiros, minorias, ilegais e institucionalizados, a tratamentos/serviços preventivos, curativos e paliativos. São cuidados que visam melhorar a qualidade de vida dos doentes e suas famílias, que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso à identificação precoce e tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, nomeadamente a dor, mas também dos psicológicos, sociais e espirituais.

 

Beneficiam destes cuidados crianças e adultos com malformações congénitas ou outras situações que dependam de terapêutica de suporte de vida e/ou apoio de longa duração para as atividades de vida diárias;  Pessoas com qualquer doença aguda, grave e ameaçadora da vida (tais como traumatismos graves, leucemia, acidente vascular agudo) onde a cura ou reversibilidade é um objetivo realista, mas a situação em si própria ou o seu tratamento tem significativos efeitos negativos dando origem a uma qualidade de vida fraca e/ou sofrimento; Pessoas com doença crónica progressiva, tal como doença vascular periférica, neoplasia, insuficiência renal ou hepática, acidente vascular cerebral com significativa incapacidade funcional, doença cardíaca ou pulmonar avançada, fragilidade, doenças neurovegetativas e demência; Pessoas com doença ameaçadora da vida, que escolheram não fazer tratamento orientado para a doença ou de suporte/prolongamento da vida e que requeiram este tipo de cuidados;  Pessoas com lesões crónicas e limitativas, resultantes de acidente ou outras formas de trauma; Pessoas seriamente doentes ou em fase terminal (demência em estádio final, cancro terminal, acidente vascular gravemente incapacitante) que não têm possibilidade de recuperação ou estabilização e, para os quais, os cuidados paliativo intensivos são o objetivo predominante dos cuidados no tempo de vida remanescente.

 

Veja também: Fátima Cardoso: «O cancro é a nova epidemia»

 

Com a esperança de vida a aumentar e a população a envelhecer, estes cuidados são cada vez mais procurados?

Sim. Cada vez mais procurados, mas essencialmente mais necessários. Só em Portugal estaremos a falar de cerca de 100 mil pessoas, a que acresce um núcleo familiar e de amigos de cerca de 500 mil.

 

E a rede em Portugal está preparada para aguentar esta pressão?

Não está preparada, nem em quantidade de recursos estruturais, nem humanos, nem de financiamento, nem de competências profissionais.

 

Qual a cobertura?

Segundo os dados mais recentes, se tivermos os números registados, apenas cerca de 2% de quem necessita tem acesso, embora tendo em conta os dados oficiosos, ou seja, estimativa de quantos doentes são tratados pelas equipas, podermos estar a pensar numa cobertura de 15%, embora com grandes desigualdades regionais e de patologia.

 

Mas estes cuidados são obrigatórios por lei nos hospitais, certo? 

Certo. Desde há vários anos, embora agora reforçado no plano estratégico para o biénio 2017-2018. Obriga a ter uma equipa intra-hospitalar de suporte em cuidados paliativos em todos os hospitais e uma unidade de cuidados paliativos nos hospitais mais diferenciados, como os hospitais universitários e especializados.

Artigo anterior

Tal moda, tal vinho

Próximo artigo

‘Despacito’ bate recorde no YouTube ao atingir 4 mil milhões de visualizações