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Conheça o Kitchen Dates, o primeiro restaurante português sem caixote do lixo

Nos últimos anos, o princípio da sustentabilidade tem estado em cima da mesa, discutido em várias frentes, desde a moda à gastronomia. Assente nos valores da economia circular, do local, do biológico e do 100% vegetal, nasceu o Kitchen Dates, o primeiro restaurante português onde todos os produtos que se servem à mesa são inteiramente consumidos. A propósito do Dia da Gastronomia Sustentável, falámos com Maria, uma das fundadoras do espaço, para perceber como este funciona.

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Todos os anos, os portugueses deitam para o lixo um milhão de toneladas de alimentos, o que corresponde a 132 quilos de comida desperdiçado por cada português. Isto acontece não só porque se compra em demasiada quantidade, mas também porque se deitam fora partes de alimentos que podiam ser aproveitados. Movidos por esta consciência, Maria Antunes e Rui Catalão decidiram mudar a sua alimentação e consequentemente toda a sua vida.

 

«Tudo começou na Holanda. Nós vivíamos em Amsterdão e num supermercado estávamos à procura de um pão de qualidade e nunca conseguíamos encontrar. O pão tinha sempre mais de dez ingredientes, um deles era sempre açúcar e a maioria do pão consumido era pão de forma, que eles guardavam no frigorifico, e isso chocava-nos muito. À medida que fizemos essa procura percebemos que não era só o pão que estava nesse estado, que toda a indústria alimentar sofria desse problema. Então percebemos que tínhamos de procurar mais se queríamos ter uma alimentação mais saudável e consciente. O tempo foi passando e nós fomos investigando cada vez mais e foi aí que a nossa alimentação se tornou completamente diferente da das pessoas que nos rodeavam», explica Maria Antunes.

 

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Depois de mudarem completamente a sua alimentação, Maria e Rui foram desafiados por uns amigos a reunirem pequenos grupos de pessoas em casa para darem a conhecer o que comiam. Maria conta que «em fevereiro de 2017 realizámos o primeiro brunch na nossa casa em Amesterdão. Correu tão bem que decidimos que tínhamos de continuar. Para nós era muito mais do que servir comida, era uma experiência social, onde as pessoas se conheciam à mesa e podiam partilhar ideias e interesses, numa altura da vida em que isto é mais difícil, contrariamente aquando somos jovens».

 

Com a realização dos eventos, que corriam cada vez melhor, acabaram por perceber que já não estavam satisfeitos com a Holanda e tomaram a decisão de regressar a Portugal. Em outubro de 2017, realizava-se o primeiro em Lisboa. E este surpreendeu novamente Maria e Rui.  «Correu tão bem que quando anunciamos o segundo a coisa explodiu e em cinco minutos esgotou. No decorrer destes eventos as pessoas começaram a questionar quando teríamos um espaço próprio, porque como era tão difícil nalguns eventos conseguir vaga as pessoas sentiam que queriam passar mais tempo connosco e comer mais coisas nossas».

 

Foi assim que em outubro de 2019 surge na Rua do Seminário, em Lisboa, o Kitchen Dates. Maria Antunes conta que não queriam que este fosse um restaurante convencional, «primeiro porque nós não temos formação em cozinha e depois porque aquilo que proporcionávamos nos eventos que fazíamos em casa era muito mais do que a experiência de ir a um restaurante. Decidimos então criar um espaço com uns princípios muito definidos, onde as pessoas podiam passar mais tempo connosco, mas onde promovemos a literacia alimentar».

 

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Uma economia que circula

«Nós temos o primeiro restaurante sem caixote do lixo de Portugal e somos o único do mundo que tem o foco de ser totalmente local. Tudo o que se serve no restaurante tem de ser inteiramente consumido, ou na cozinha durante a preparação, ou pelo cliente ou em último caso pelo staff. Tudo tem de ser transformado em composto ou reutilizado, através da reciclagem, que é o nosso último recurso. Nós temos uma compostora elétrica, a Eva, que transforma toda a matéria orgânica em composto, que depois retornamos aos agricultores com quem trabalhamos, numa lógica de economia circular, que é também uma das nossas bases», explica a proprietária.

 

Maria esclarece que esta economia circular se torna mais fácil porque o Kitchen Dates apenas trabalha com produtores de proximidade. «Temos um raio de ação de 50km ao redor de Telheiras para produtos frescos e um raio de 500km para todos os outros ingredientes, como cereais e frutos secos, produtos que geralmente não conseguimos encontrar próximos de Lisboa. Neste momento, o produto que nos chega de mais longe é a amêndoa, que vem de Vila Nova de Foz Côa».

 

Por esta mesma razão a proprietária explica que no restaurante não existem alguns produtos como o café, as especiarias, o coco, a banana, o caju e o cacau. «Muitos dos ingredientes que agora estão na moda nós não temos, bem como adoçantes, porque o único que existe produzido em Portugal continental é o açúcar de beterraba refinado e é altamente processado, por isso estava fora de questão. Outro dos nossos critérios é que só usamos ingredientes 100% vegetais e por isso o mel estava no limbo entre ser vegetal ou animal e por questões éticas decidimos deixá-lo de fora».

 

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