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Como três profissionais de saúde vivem a pandemia

A pandemia da Covid-19 trouxe-nos uma nova realidade, ainda mais acentuada para os profissionais de saúde que durante todo este tempo trabalham na linha da frente para garantir todos os cuidados essenciais. Falámos com Ana Patrícia Ribeiro, Luís Pereira e Soraia Castro, três profissionais que nos contam como estão a viver esta realidade.

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Ana Patrícia Ribeiro trabalha na Unidade de Cuidados Continuados e Paliativos Pediátricos em Matosinhos, e com a chegada da Covid-19 as rotinas no seu serviço foram adaptadas a uma nova realidade. As mudanças começam logo na entrada ao serviço: «Passamos a monitorizar a nossa temperatura corporal antes de entrar e respondemos também a um pequeno inquérito que a instituição criou para despistar uma eventual suspeita de contaminação», começa por contar a enfermeira.

 

Luís Pereira, enfermeiro há cinco anos, trabalha no Hospital do Espírito Santo, em Évora, e confessa que nunca imaginou que uma pandemia viesse a fazer parte do seu quotidiano.  O enfermeiro confessa que achava que «pandemias eram coisas do passado. Nunca pensei que chegasse o dia em que teria medo de ir trabalhar. Nunca pensei que o aproximar da hora de ir para o Hospital me deixasse ansioso, pensando na minha família e amigos a cada passo que dava a caminho do trabalho». Para Luís, as mudanças sentiram-se desde o início, já que o serviço onde trabalhava foi extinto para restruturações que viriam a servir para dar resposta à Covid-19.

 

Soraia Castro tem 29 anos e desde tenra idade que sonhava ser enfermeira. «O cuidar do outro consome-nos em todas as dimensões, mas a capacidade de lhe poder dar qualidade de vida e a sua própria vida no seu momento mais lábil é uma sensação que ultrapassa tudo. É isto que sinto todos os dias da minha vida quando visto a farda, quando o meu toque chega à alma do outro, quando um sorriso deles me enaltece o dia».

 

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Atualmente trabalha na Unidade de Cuidados Intensivos Cirúrgicos Cardiotorácicos do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central e, apesar de estar num serviço de pequena dimensão, as medidas a adotar e o medo que paira no ar é o mesmo que em qualquer hospital.

 

«A realidade que nos envolve baseia-se em cirurgias ao coração, pulmões e transplantação pulmonar. Visto que se trata de doentes de elevado risco, os cuidados não são diferentes, mas sim dirigidos e peculiares. Atualmente qualquer doente vindo de outro centro hospitalar vem com o teste realizado e os doentes que entram do domicílio fazem os testes no serviço. Essas primeiras seis horas em que tudo mexe, em que tudo se desenrola, mesmo sabendo que fizemos tudo direitinho há sempre risco», explica Soraia.

 

A enfermeira, que não tem doentes infetados no serviço, já que os que são detetados são transportados para o Hospital Curry Cabral, realça na mesma a importância dos cuidados, ainda para mais num serviço em que todos os doentes pertencem ao grupo de risco.

 

Não estando a lidar diretamente com casos de pessoas infetadas, Ana Patrícia assinala algumas alterações na rotina profissional. «Passamos também a usar diariamente EPI’s (equipamentos de proteção individual), como máscaras, viseiras, toucas e luvas no cuidado diário das crianças. Nas nossas pausas tentamos manter a distância social e sobretudo tentamos manter o funcionamento normal da unidade e as rotinas das nossas crianças, só que respeitando as recomendações da Direção Geral da Saúde», explica.

 

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Já Luís Pereira mudou várias vezes de função ao longo dos últimos meses. «Numa primeira fase trabalhei com os apelidados “doentes cinzentos”, ou seja, doentes que por algum motivo são suspeitos de ser infetados por SARS-CoV-2 ou têm testes inconclusivos para o mesmo. Nessa fase senti o peso da “armadura”, senti o que é quase sufocar debaixo de todo aquele equipamento de proteção, enquanto cuidava de alguém e ao mesmo tempo me preocupava se poderia deixar alguma parte do corpo a descoberto. Cada resultado negativo dos doentes era um alívio».

 

Já numa segunda fase, o enfermeiro e toda a sua equipa foram chamados a ocupar lacunas existentes noutros serviços: urgência, internamento, UCI e Covid. «Escolhi ir para o Internamento e comecei a mentalizar-me para tal. Apesar de na fase anterior ter que usar todos os EPI, e todos as normas de segurança como se à partida todos os doentes que estava a cuidar fossem positivos para COVID, pois não se pode correr riscos, na próxima etapa seria uma certeza, e foi para isso que me comecei a preparar. Mas ainda não era este o meu destino».

 

«Neste momento tudo aquilo que era dado como certo antes deixou de o ser. No meu caso, foi necessário fazer de um espaço antigo, com menos condições, um serviço apto a receber doentes com alta clínica, a aguardar resolução social. E ali, num espaço onde pouco funcionava há anos, surgiu um serviço hospitalar, com o esforço maioritário de enfermeiros e auxiliares de saúde, que depois de encerrarem as portas do seu serviço, com as suas mãos, criaram um novo pronto a receber doentes», explica Luís.

 

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