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Estado terminal: como se mantém a esperança no fim da vida?

‘A esperança é a última a morrer’. ‘Enquanto há vida há esperança’. A sabedoria popular revela-se até nos momentos mais dramáticos da vida, como é o caso de quem está objetivamente às portas da morte. Alguns perdem-na antes do fim da linha, mas muitos agarram-se à centelha da vida por mais óbvio que seja que ela se está a extinguir. Falámos com vários especialistas e com familiares que acompanharam e vivenciaram esta viagem psicológica, do diagnóstico à morte.

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Este é um tema complexo e de difícil estudo. Contudo, a psicóloga Catarina Lucas explica que «se a pessoa tiver um sentimento positivo em relação ao seu passado, será mais fácil olhar para trás e encarar a morte de forma menos penosa, podendo existir um sentimento de preenchimento. Contudo, pode ser bastante dolorosa, quando o sentimento é de incompletude, de assuntos pendentes ou não resolvidos que originarão angústia. Estudos científicos demonstram-nos que pessoas com crença religiosa aceitam mais facilmente este tipo de situação, olhando-a como um desígnio».

 

Porém, as pessoas são diferentes e as reações diversas e imprevisíveis. «Em alguns casos, os pensamentos podem ser autodestrutivos, o que conduz ao isolamento e ao evitamento das pessoas que lhe são próximas. A raiva e revolta podem ser grandes, inviabilizando uma morte serena. Se existir um sentimento de vida preenchida e “feliz” poderá existir um estado de maior tranquilidade e aceitação do processo», explica a psicóloga.

 

Para perceber melhor esta questão psicológica, questionámos a equipa de cuidados paliativos do Hospital Garcia de Orta, em Almada, sobre o estado psicológico em que chegam os doentes ao seu serviço: «Há muitos doentes que chegam aqui sem perceberem muito bem o que é que se está a passar. E nem sabem qual é verdadeiramente o problema deles. Os familiares não dizem, nunca houve uma conversa franca, ajustada às capacidades de entendimento do doente para o por ao corrente da maneira como a doença tem evoluído. Ou então a doença foi tao agressiva que a pessoa chega qui completamente devastada e em choque. Já os mais informados, uns vêm com muita tristeza, outros com raiva, outros com sentimento de terem sido maltratados, que ninguém olhou para eles, que os enganaram. Raramente vem um doente tranquilo. São sempre sentimentos muito fortes. A tristeza domina isto tudo, como é inevitável».

 

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É, no entanto, de consenso geral que o apoio da família e dos amigos é crucial para ajudar a atenuar esta dor profunda. «Neste momento, o ‘estar’ pode ser uma das poucas coisas a fazer. Por ‘estar’ refiro o verdadeiro sentido da palavra, já que muitas vezes estamos lá, mas ausentes em pensamento. Por isso, nesta fase, é importante que a pessoa se sinta acompanhada, querida e amada, que não se sinta abandonada ou só. Podem ainda reforçar o papel importante que a pessoa teve, valorizando-a. É importante também estar aberto ao que a pessoa possa ter para falar, aos seus medos ou à própria temática da morte», explica Catarina Lucas.

 

Como presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP), Manuel Luís Capelas, confirma que, perante a consciência da finitude próxima, cada caso é um caso. «O que se sabe é que se forem bem apoiados encaram esta fase com grande serenidade e realidade», conta.

 

Resolver assuntos pendentes ou revelar últimos desejos é algo que chega com a aceitação do seu estado. E apesar de ser um assunto desconfortável falar do tipo de enterro ou de situações pendentes, estes temas devem ser abordados, como aconselha a psicóloga: «Deve ser dado espaço ao doente para falar, mesmo que o conteúdo possa ser constrangedor. Temas difíceis como a morte não devem ser evitados se o doente desejar falar sobre isso. A escuta ativa é também uma ferramenta essencial. Por outro lado, o doente deve verbalizar o que sente, partilhar com aqueles que lhe são queridos os seus medos, angústias ou até mesmo sentimentos positivos em relação aos familiares. Deve olhar a sua vida em retrospetiva, valorizando os aspetos positivos».

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