Home»ATUALIDADE»REPORTAGENS»Estado terminal: como se mantém a esperança no fim da vida?

Estado terminal: como se mantém a esperança no fim da vida?

‘A esperança é a última a morrer’. ‘Enquanto há vida há esperança’. A sabedoria popular revela-se até nos momentos mais dramáticos da vida, como é o caso de quem está objetivamente às portas da morte. Alguns perdem-na antes do fim da linha, mas muitos agarram-se à centelha da vida por mais óbvio que seja que ela se está a extinguir. Falámos com vários especialistas e com familiares que acompanharam e vivenciaram esta viagem psicológica, do diagnóstico à morte.

Pinterest Google+

(NOTA: Este artigo foi distinguido, a 12 de julho de 2018, com uma Menção Honrosa nos prémios ‘Jornalismo em Oncologia’, atribuídos anualmente pela Liga Portuguesa Contra o Cancro aos melhores trabalhos jornalísticos sobre cancro nas categorias de imprensa e audiovisual publicados em Portugal.)

 

«Aqui já não podemos fazer mais nada pelo seu pai. Vamos passa-lo para os cuidados paliativos». A notícia foi recebida como um murro no estômago por Susana Duarte. Sabia o que isso significava. Mas num minuto teve de processar a informação passada pela oncologista que seguia o pai e logo engendrar uma forma de encarar os pais que esperavam na sala de espera sem lhes dar a entender que o fim da linha estava objetivamente à vista. E sem chorar.

 

«Mas não pode voltar a fazer os tratamentos? E se ganhar peso», perguntou ainda. «O seu pai está já muito magro e não tem peso para aguentar o tratamento. Se voltar a engordar, sim, pode eventualmente voltar aos tratamentos», explicou a oncologista. Mas isso nunca acontece, não revelou a oncologista, apesar de o ter transmitido com o olhar, conta Susana.

 

Mas esse ‘se’ foi o suficiente para a centelha da esperança voltar a acender-se no coração de Susana. «Enquanto há vida, há esperança. E ele ainda está vivo. É o que importa. Tem de voltar a engordar», conta Susana, que viu, juntamente com a sua família, a saúde e a vida do seu pai degradar-se num ano e meio. Passou da vida saudável ao corredor da morte num ápice.  Ainda assim, ela saiu da sala da médica com esperança. Ingenuamente com esperança.

 

Questionada pelos pais sobre o que queria a médica falar sozinha com ela, respondeu-lhes que queria só explicar tudo: que o pai estava muito magro e que iria ser transferido para um outro serviço onde iriam tratar dos enjoos, problemas intestinais e dores, para quando voltasse a engordar retomar os tratamentos. «Não menti e mantive a esperança. Mas no fundo eu sabia que era o fim da linha. É o que pensamos sempre que alguém vai para os paliativos. Mas não referi nunca esta palavra. Disse que ia para outro serviço para lhe controlarem os efeitos que estava a sentir. Que a oncologista o seguia apenas quando estava em tratamentos e que depois de engordar voltaria para novos tratamentos. Não sei se acreditaram. Não sei o que passou pela cabeça do meu pai. Pode ter-se agarrado também à esperança que lhe dei. Realmente, é o que nos vale», conta.

 

VEJA TAMBÉM: JÁ CONHECE O CÓDIGO EUROPEU CONTRA O CANCRO?

 

Uma viagem alucinante pelas emoções

‘A esperança é a última a morrer’ ou ‘enquanto há vida há esperança’. São ditados populares que emergem nesta viagem de emoções que começa com o choque do diagnóstico e se mantém quase até ao último sopro de vida, apesar de todas as evidências e confirmações médicas que acompanham um doente em estado terminal e que ditam o contrário. «O seu pai estava em estado terminal desde que foi diagnosticado, há um ano e meio», disse a oncologista. «Mas está ainda vivo. É o que interessa», conta mais uma vez Susana sobre as conversas que teve em consultório. «Enquanto o via levantar-se e andar pelo seu próprio pé, essa realidade parecia distante. Ele sempre esteve presente. Portanto, eu não conhecia outra forma de ser e de estar. O resto não era a nossa realidade. Parece que é um filme na sala ao lado».

 

Para além de todas as questões físicas, há todo um carrossel de emoções que assola quem padece de uma doença terminal e de quem o circunda. Segundo o modelo criado pela psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross (1926-2004), perante o cenário eminente de morte, passamos por cinco fases:

1 – Negação: «Isto não pode estar a acontecer»

2 – Raiva: «Por que eu? Não é justo»

3 – Negociação: «Deixe-me viver apenas até ver os meus filhos crescerem»

4 – Depressão: «Estou tão triste. Porquê me hei de preocupar com qualquer coisa?»

5 – Aceitação: «Vai tudo ficar bem», «Eu não consigo lutar contra isto, é melhor preparar-me».

 

«Eu recordo-me de ver o meu pai questionar-se porquê ele, que sempre levou uma vida saudável. Recordo-me também de o encontrar por vezes muito triste. Com uma tristeza no rosto como nunca vi em ninguém. E, perto do final, pareceu-me mais tranquilo. Julgo que viu que não havia nada a fazer e aceitou. Transmitiu-me alguns recados de como queria certos assuntos resolvidos. Não sei é se estaria assim mais calmo também por causa da morfina que tomava», conta Susana.

 

A medicação que existe atualmente, nomeadamente a morfina entre outras soluções para atenuar os múltiplos sintomas da doença que provocam mau estar, acaba por desempenhar um papel crucial para dar algum conforto no final da vida, algo que antigamente não estava disponível. «As idas à farmácia tornaram-se constantes e dava-nos sempre alguma esperança que um novo medicamento prescrito fosse ‘a salvação’ da situação. Cada melhoria, mesmo que pequena, era uma vitória. Mantinha-nos positivos», comenta a filha.

Artigo anterior

Estudo revela que portugueses vão gastar em média 377 euros no Natal

Próximo artigo

Como entreter as crianças durante uma viagem