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Cláudio Rebelo: «Não incluir a vacinação de rapazes para o HPV é discriminação perante um vírus que não escolhe género»

Portugal tem uma das incidências mais altas de cancro do colo do útero dos países europeus desenvolvidos, sendo mesmo o país com a taxa mais alta de mortalidade na Europa Ocidental. Surgem 720 novos casos por ano, sendo que 390 acabam por ser fatais. No rescaldo da Semana Europeia de Prevenção do Cancro do Colo do Útero, que decorreu de 21 a 27 de janeiro, o ginecologista Cláudio Rebelo fala-nos da situação atual, no país e no mundo, de um cancro que podia ser erradicado.

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Que impacto tem o cancro do colo do útero em Portugal? Qual a incidência de casos e mortes por ano?

O cancro do colo do útero em Portugal é o segundo tumor maligno ginecológico mais frequente nas mulheres com menos de 50 anos. Em 2018 surgiram cerca de 750 novos casos (incidência de 13,8/100 000) e faleceram cerca de 370 mulheres com este diagnóstico. Para além disso, é um tumor que, no seu tratamento, pode acarretar outras morbilidades como infertilidade, dor pélvica crónica e menopausa precoce.

 

Porque é que é um tumor comum em mulheres jovens?

É um cancro provocado pela infeção persistente pelo vírus HPV (vírus do papiloma humano, nomeadamente o HPV 16 e 18. Esta infeção, ao ser uma doença assintomática sexualmente transmissível, afeta mulheres entre os 35 e os 50 anos de idade. Assim, as mulheres, após início da vida sexual na adolescência/vida adulta, têm os contactos com o vírus e depois temos os cerca de 10 anos da persistência da infeção para o surgir do diagnóstico de cancro do colo do útero.

 

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O HPV é conhecido pelo cancro do colo do útero. Mas causa muito mais doenças. Pode explicar a incidência do HPV?

Existem cerca de 200 subtipos, ou seja, “primos” diferentes de HPV. Destes, os HPV de alto risco são os: 16/18/31/33/35/39/45/51/52 e 58. Entre estes, os serotipos 16 e 18 são os mais agressivos. Estima-se que mundialmente existam cerca de 530 000 casos de cancro do colo do útero (71% provocados pelo HPV16/18 e mais 20% pelos restantes HPV); 35 000 casos de cancro anal (87% provocados pelo HPV16/18 e mais 10% pelos restantes HPV); 30 000 casos de cancro da orofaringe provocados pelo HPV (cerca de 32% do total dos cancros da orofaringe); 20 000 casos de cancro da vulva e vagina (85% casos provocados pelo HPV); 15 000 casos de cancro do pénis provocados pelo HPV (50%).

 

Outra crença é que afeta só as mulheres, por estar muito relacionado com o cancro do colo do útero. Mas também afeta homens. De que forma e em que percentagem os afeta?

Os vírus não escolhem género, tipo ou orientação sexual. De facto, após anos de luta e consciencialização contra o cancro do colo do útero, vimos, mais recentemente, a salientar a importância deste vírus em provocar infeção persistente e doença nos homens. Mundialmente, temos cerca de 85 000 novos casos de cancro por ano em homens atribuíveis ao HPV – cancro da cabeça e pescoço (nomeadamente em não fumadores), cancro do ânus e cancro do pénis. Para além do cancro, a infeção por HPV de alto risco nos homens interfere com a espermatogénese e causa diminuição da motilidade dos espermatozoides com a consequente infertilidade.

 

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Portugal tem uma taxa elevada de vacinação das mulheres. Sendo uma doença de transmissão sexual, a não vacinação dos homens é uma brecha no combate. Como está Portugal nesta matéria de vacinação dos rapazes?

Como sabemos, o Plano Nacional de Vacinação (PNV) português é um caso de sucesso a nível europeu e mundial e muito tem contribuído para os ganhos de saúde verificados em Portugal nos últimos 30 anos. Ao não incluir a vacinação de rapazes para o HPV no PNV, existe de facto uma discriminação perante um vírus que não escolhe género sexual. Ao apresentarmos uma cobertura vacinal das raparigas > 90% no PNV existe um benefício de “rebanho” e, assim, os rapazes que se mantenham em Portugal estarão também protegidos.

 

No entanto, não podemos esquecer que, neste mundo globalizado, se o jovem português mantiver relações com parceiras ou parceiros de outros países com taxas de vacinação muito inferiores estará sempre em risco de desenvolver doença. Assim estamos perante um paradoxo médico: temos um vírus que provoca doenças e doenças oncológicas em mulheres e homens e o PNV, ao assumir comportamentos e até orientações sexuais futuras, discrimina e só protege um dos sexos.

 

Para além disso temos outra discriminação geradora de desigualdade social pois temos assistido a que os pais mais informados e com maior poder económico têm vacinado os seus filhos rapazes por recomendação médica (pediatras). Só a inclusão em PNV da vacinação dos rapazes ao ser universal e independente dos recursos socais terminaria com esta iniquidade.

 

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Que impacto tem na sociedade com a vacinação de raparigas e rapazes. É possível erradicar a doença de um país?

Neste momento, cerca de 15 países em todo o mundo têm os rapazes incluídos nos seus planos nacionais (Austrália, Hong Kong, Coreia do Sul, Áustria, Bermuda, Brasil, Canada, Israel, Itália, Nova Zelândia, Noruega, Holanda, Suíça, EUA e desde 2019 o Reino Unido). Os sitios HPVaction.org e nomancampaign.org apresentam dados que revelam que uma cobertura de 80% de rapazes e raparigas levaria à erradicação das doenças provocadas pelo HPV.

 

De facto, ao vacinar os rapazes contra o HPV, a resiliência do programa vacinal aumenta exponencialmente e, assim, mesmo que surja uma pequena diminuição da adesão das raparigas à vacinação garante-se a estabilidade e a proteção de todo o “rebanho” (“herd protection”). A OMS associa-se à “vitória” da Austrália que, ao ser o primeiro país (2010) a vacinar universalmente homens e mulheres, anunciou o ano de 2028 como o ano da erradicação do cancro do colo do útero (< 4 casos por 100 000).

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