Home»VIDA»DIREITOS HUMANOS»Centenas de milhões de mulheres vivem vidas ‘geridas por outros’

Centenas de milhões de mulheres vivem vidas ‘geridas por outros’

Novo relatório da Organização das Nações Unidas mostra que quase metade das mulheres em cerca de 57 países não têm o poder de fazer escolhas sobre seus cuidados de saúde, contraceção ou vida sexual.

Pinterest Google+
PUB

Um novo relatório do Fundo de População da Organização das Nações Unidas (UNFPA) lançado hoje dá conta de que centenas de milhões de mulheres no mundo vivem vidas ‘geridas por outros, nomeadamente no que toca à sua saúde, gestão de vida sexual e contraceção.

 

De acordo com o relatório ‘O Estado da População Mundial’, a falta de autonomia corporal pode ter piorado durante a pandemia de coronavírus, colocando um número recorde de mulheres e meninas em risco de violência de género e práticas prejudiciais, como casamento precoce.

 

«O facto de quase metade das mulheres ainda não conseguirem tomar as suas próprias decisões sobre ter ou não sexo, usar métodos anticoncecionais ou procurar assistência médica deveria indignar-nos a todos», diz Natalia Kanem, diretora executiva do UNFPA, num comunicado à imprensa.

 

VEJA TAMBÉM: RELATÓRIO GLOBAL DA AMNISTIA ALERTA PARA INCREMENTO DAS DESIGUALDADES DEVIDO À PANDEMIA

 

«Em essência, centenas de milhões de mulheres e meninas não possuem os seus próprios corpos. As suas vidas são governadas por outros», acrescenta Kanem, observando que a negação da autonomia corporal é uma violação dos direitos humanos fundamentais das mulheres e meninas. Também reforça as desigualdades e perpetua a violência decorrente da discriminação de género. «É nada menos do que uma aniquilação do espírito, e tem de parar», reforça.

 

O relatório também observou que o poder de uma mulher de controlar o seu próprio corpo está ligado ao controlo que também tem noutras esferas da sua vida, com maior autonomia associada a avanços em saúde, educação, rendimento e segurança.

 

O UNFPA fala em ‘descobertas alarmantes’. Entre as conclusões, documenta várias formas de violação da autonomia corporal não só de mulheres e raparigas, mas também de homens e rapazes, com fatores como a incapacidade agravando a situação. Por exemplo, meninas e meninos com deficiência têm quase três vezes mais probabilidade de serem submetidos a violência sexual, com as meninas em maior risco, apurou o relatório.

 

Também ambientes legais punitivos, combinados com estigma, discriminação e altos níveis de violência colocam gays e outros homens que fazem sexo com homens em alto risco de infeção por HIV, porque são conduzidos à clandestinidade por medo de processo ou outras consequências negativas. Como resultado, eles não recebem educação em saúde adequada e relutam em procurar serviços de saúde, exames e tratamento.

 

VEJA TAMBÉM: ADICIONADOS 36 ANOS: PARIDADE ENTRE HOMENS E MULHERES RECUA UMA GERAÇÃO DEVIDO À PANDEMIA

 

O relatório acrescenta que cerca de 20 países ou territórios têm as chamadas leis de “case-se com o seu violador”, em que um homem pode escapar de um processo criminal se se casar com a mulher ou menina que violou, enquanto 43 países não têm legislação que trate do assunto de violência marital.

 

O relatório também descreve como os esforços para lidar com os abusos podem levar a novas violações da autonomia corporal. Por exemplo, para processar um caso de violação, um sistema de justiça criminal pode exigir que um sobrevivente seja submetido a um chamado teste de virgindade invasivo.

 

O relatório destaca, por fim, que lidar com a situação apavorante «requer muito mais do que uma série desconectada de projetos ou serviços», enfatizando que o progresso real e sustentado depende em grande parte da erradicação da desigualdade de género e de todas as formas de discriminação, e da transformação das estruturas sociais e económicas que os mantêm.

 

VEJA TAMBÉM:

MINISTÉRIO DA DEFESA CRIA UNIDADE DE PREVENÇÃO DE ASSÉDIO

MAIS 10 MILHÕES DE MENINAS EM RISCO DE CASAMENTO INFANTIL DEVIDO À COVID-19

ONU: 25% DAS MULHERES A PARTIR DOS 15 ANOS SÃO VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DE GÉNERO

DIREITOS DAS MULHERES: ORGANIZAÇÕES HUMANITÁRIAS CONDENAM SAÍDA DA TURQUIA DA CONVENÇÃO DE ISTAMBUL

DAVID SASSOLI: «PANDEMIA AUMENTOU DESIGUALDADES E PODE TER DESTRUÍDO DÉCADAS DE CONQUISTAS DOS DIREITOS DAS MULHERES»

MARIA MANUEL LEITÃO MARQUES: «PRECISAMOS DE CONTINUAR A LUTAR PELOS DIREITOS DAS MULHERES SE NÃO QUEREMOS ESPERAR 60 ANOS PELA IGUALDADE PLENA»

Artigo anterior

Soja, óleo de palma e carne de bovino: consumo nos países europeus está a devorar florestas nos trópicos

Próximo artigo

A pressão diária é muita? Trabalhe estas formas de resistência