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Cena de uma violação

Não foi só o corpo que morreu (o excesso de peso, a perda de desejo, o evitamento do toque, o sobressalto, a inquietação), a sua personalidade entrou em clivagem, mais sombria, menos espontânea, mais pessimista, menos criativa.

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Sarah Ottens

Sarah era uma jovem do tipo sociável. Na escola, envolvia-se em diversas atividades que a mesma oferecia, teatro, rádio, jornal. Foi a primeira dos 5 irmãos a ir para a faculdade. Estudava enfermagem na Universidade do Iowa. Nos tempos livres trabalhava em part-time.

 

As férias na universidade levaram os colegas de Sarah a uma viagem ao México que ela declinou por querer fazer horas extra no trabalho. A maior parte dos alunos desapareciam do campus nas férias, no dormitório, no piso de Sarah, quase ninguém havia.  Nessa semana, no dia 13 de março de 1973, Sarah Ottens foi violada e assassinada no seu quarto. Tinha 20 anos.

 

Sofia

Sofia concorreu para uma bolsa de estudo na Índia por um ano. Aos 20 anos foi viver para fora da Europa, da sua ordenação, da sua previsibilidade.  A vontade de viajar, de conhecer sítios novos e de viver neles por algum tempo sempre a entusiasmou. Fez amigos estrangeiros e locais. O melhor amigo, Raj, um indiano da mesma turma.

 

Numa manhã em que passeavam pela cidade, Raj, Sofia e Dev, outro colega de turma, decidiram explorar um apartamento em ruínas onde a vista da cidade parecia promissora. Raj e Sofia estavam sós, Dev tinha saído, compras, disse ele. A vista pela cidade transformou-se numa agressão. Mesmo resistindo, Sofia foi violada. Raj adormeceu, ela não conseguia sair dali sem ajuda. Regressaram os três, andaram de carro às voltas pela cidade, é isso que Sofia se lembra de repetidas e circulares imagens no banco de trás do carro. Deixaram-na em casa.

 

Sofia confrontou Raj. Este ignorou-a, era um problema dela, uma invenção dela.  Depois, culpou-a, europeia, tão disponível para ser amiga de homens. Qualquer queixa contra ele não levaria a nada. Os espetadores são silenciosos e assistiriam à sua morte.

 

Ficou mais 6 meses na índia. Nunca mais falou daquele dia. Mas aquele dia mudou-lhe o que poderia ser. Vezes sem conta assistiu à sua própria morte. Não foi só o corpo que morreu (o excesso de peso, a perda de desejo, o evitamento do toque, o sobressalto, a inquietação), a sua personalidade entrou em clivagem, mais sombria, menos espontânea, mais pessimista, menos criativa.

 

Havia o antes e o depois, coexistiam em si dois mundos diferentes, duas pessoas diferentes. Antes, a promessa, depois a tormenta. Aos 28 anos uma tristeza implodiu-a. Não sabia quem era e o que fazer da sua vida. Queria reaver a outra pessoa em si que não sabia encontrar. Depois, aos 28 anos, começou a traçar um caminho entre as dualidades dentro de si. O corpo permanecia ligando uma e outra Sofia.

 

Ana Mendietta

Um mês depois da morte de Sarah Ottens, Ana Mendietta, artista plástica, convidou os seus amigos (homens) para uma performance no seu apartamento. A porta estava entreaberta. Quem entrasse deparava-se com o seu corpo sobre uma mesa branca. Ana estava amarrada, nua da cintura para baixo, ensanguentada nas nádegas e coxas, as calças amarfanhadas prendiam os tornozelos.

 

Esta performance, registada num trabalho fotográfico como “Rape Scene”, e outros trabalhos que se seguiram de Mendietta, pretendia ampliar a violência existente contra as mulheres numa sociedade em que nos é fácil ser espectadores das suas mortes, simbólicas ou reais.  Nelly Richard, crítica de arte, refere que na arte “trabalhar com o corpo foi provavelmente a melhor forma de expor a repressão de significados ou as posições de poder nos discursos oficiais”.

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