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Catarina Lucas: “As mulheres são o grupo mais propenso a desenvolver depressão”

A psicóloga Catarina Lucas é coautora do livro “Depressão: muito para além da tristeza”, que pretende clarificar as consequências e formas de tratamento de um estado depressivo. Falamos com a autora sobre aquela que é uma das doenças do século.

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“Estarão as pessoas conscientes das diferenças entre uma depressão e estados de tristeza temporários?” Esta pergunta lança o mote para o desenvolvimento do livro “Depressão: muito para além da tristeza”, escrito em parceria com Susana Ferreira, que pretende servir como um guia no tratamento da depressão, bem como um manual de informação para técnicos e famílias destes pacientes.
Catarina Lucas é psicóloga clínica, licenciada em Psicologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade da Beira Interior. Além deste livro, é autora das publicações “Perturbação Obsessivo-Compulsiva – manual de intervenção” e “Perturbações do Comportamento Alimentar”. É ainda palestrante e investigadora, possuindo vários artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. Possui experiência no trabalho clínico com crianças, adolescentes e adultos.

(Veja AQUI a lista de sintomas de alerta para os riscos de depressão, segundo Catarina Lucas)

De forma simples, como definiria a depressão?
A depressão é uma doença do foro psicológico caraterizada por sentimentos de tristeza, perda de interesse pelas atividades outrora vistas como agradáveis, ideação suicida, perda de apetite, alterações no sono, entre outros. É uma doença incapacitante e que conduz ao isolamento. A par disto, surgem sentimentos de desvalorização pessoal, de baixa autoestima e de inferioridade. As consequências são inegáveis, tudo se altera, instalando-se um sentimento de desesperança que conduz a pessoa para um “local” do qual não consegue ver uma fuga possível, ou onde, por vezes, a única saída vislumbrada passa por colocar termo à vida, através do suicídio, sendo esta uma saída sem retorno, uma solução definitiva para um problema transitório.

Esta pode revelar-se de várias formas?
Sim, a depressão pode revelar-se de forma distinta em diferentes pessoas. Se em algumas pessoas notamos a sua presença através de sintomas como tristeza constante, choro fácil, perda de interesse ou isolamento, noutras poderemos nota-la através de alguma euforia, desinibição ou comportamentos de risco. Neste segundo caso, a identificação da patologia não se torna tão fácil para aqueles que rodeiam a pessoa, uma vez que vulgarmente se associa a depressão a outros sintomas.

Quais as formas de tratamento mais comuns?
Os tratamentos para a depressão são frequentemente desenvolvidos por profissionais tais como médicos e psicólogos, implicando o aconselhamento, a psicoterapia e a medicação. Em geral, cerca de 95% dos doentes com sintomatologia depressiva são tratados apenas pelos clínicos gerais, o que pode revelar-se insuficiente, primeiro pela ausência de psicoterapia e segundo porque o ideal é a pessoa ser medicada pelo psiquiatra (especialista na área) e não pelo clínico geral. Muitos estudos indicam que o tratamento mais eficaz na depressão resulta da combinação entre psicoterapia e farmacoterapia. A utilização de medicação sem recorrer à psicoterapia pode comprometer o tratamento da depressão, sendo que o contrário pode também ser verdade.

Quais as causas mais comuns para a depressão?
Parece improvável que um fator isolado, por si só, possa explicar a ocorrência da doença, sendo esta, aparentemente, resultado de uma interação entre vários fatores distintos. A depressão é assim uma doença de causa multifatorial, que compreende fatores biológicos, históricos, ambientais e psicológicos. A ocorrência de uma situação traumática, condições de vida adversas, a perda de alguém próximo, desemprego, separação, falta de resiliência e caraterísticas de personalidade são algumas causas frequentes de depressão. Algumas doenças também podem despoletar uma depressão, nomeadamente doenças crónicas.

Há cada vez mais jovens diagnosticados com depressão. Pode falar-nos sobre isso?
Os nossos jovens estão diariamente sujeitos a pressões vindas de diferentes lados. A pressão académica tem vindo a aumentar e com as perspetivas de um futuro profissional altamente competitivo, e cedo começam a tomar consciência dos esforços que precisarão fazer. Por vezes, esta pressão é tão elevada que muitos jovens não aguentam e entram em estados depressivos ou de ansiedade elevada. A par disto, surgem as questões inerentes à socialização nos grupos. A necessidade de ser aceite, a comparação com os pares, o consumo de substâncias e até os relacionamentos amorosos podem gerar os sintomas depressivos.

Tristeza é muitas vezes confundida com depressão….
A quotidiana utilização do termo “depressão” torna impreterível que se efetue uma clara distinção entre a depressão e o sentimento de tristeza. A palavra “depressão” é comummente utilizada, de tal modo que não raras vezes é aplicada como sinónimo de “chateado”, “dececionado”, “triste” ou algum termo semelhante que se refira a uma emoção negativa que ocorre após uma experiência adversa. Contudo, a depressão, sendo uma perturbação do espetro psicológico, é mais que um estado de humor temporário. É uma constelação de experiências de humor, de alterações físicas, cognitivas e comportamentais. A tristeza poderá caracterizar-se por uma dor saudável, que, de antemão se sabe que passará, não existindo desesperança (falta de esperança no futuro) e sendo causada por uma circunstância externa. Contudo, quando ocorre depressão, mesmo que as circunstâncias externas sejam idênticas, o sentimento de dor parece que se estende a circunstâncias que vão além das externas. Assim, a tristeza surge como uma reação à perda, sendo que, o funcionamento comportamental se mantém e o risco de suicídio se encontra ausente. Por seu lado, a depressão inclui diminuição da autoestima e, por vezes, ideação ou risco de suicídio. É uma perturbação do humor que afeta o funcionamento da pessoa em diversos domínios, nomeadamente a capacidade de pensar, de estabelecer relações interpessoais, de trabalhar, entre outros aspetos.

As mulheres estão naturalmente mais predispostas a sofrer de depressão?
Aparentemente, são as mulheres o grupo mais propenso a desenvolver a doença. A Organização Mundial de Saúde demonstrou através de alguns estudos que a prevalência de episódios depressivos no sexo feminino é quase o dobro do sexo masculino. Esta maior incidência em mulheres pode dever-se, entre outros, a fatores biológicos, sociais e culturais, embora não exista uma explicação consensual.

E a doença manifesta-se de formas diferentes em mulheres e homens?
Por norma sim. Aparentemente, as mulheres demonstram mais facilmente os sintomas e mais rapidamente pedem ajuda. Talvez isto esteja ainda um pouco associado ao estigma e à ideia dos homens “como sexo forte” que não podem demonstram fraqueza, sendo a depressão vista como um sinal de fraqueza. Apesar disso, o que tenho notado na minha prática clínica é um aumento significativo do número de homens em consulta, o que parece ser indicativo de uma desmistificação dos problemas psicológicos.

Por norma, quanto tempo demora a tratar uma depressão?
Não existe um tempo definido, sendo que este varia em função do tipo e severidade dos sintomas, de fatores de personalidade da pessoa e até mesmo das causas dos sintomas. Contudo, em casos de gravidade moderada, o tratamento através da psicoterapia poderá demorar entre 6 meses e um ano, prolongando-se mais algum tempo em caso de depressão grave. Em caso de tratamento medicamentoso apenas, este período pode ser mais longo, pela ausência da aquisição de estratégias que permitam lidar com o problema e pela falta de um trabalho de alteração de pensamentos negativos.

Muitos doentes não conseguem superar a doença e ficam dependentes da medicação…
A verdade é que muitas vezes as pessoas optam por aquele que pode ser o caminho mais fácil…a medicação. Tomar um “comprimido milagroso” que promete tirar a pessoa desta apatia e sofrimento parece a solução mais viável. Contudo, a realidade é que a medicação por si só não trará a solução para o problema. Infelizmente, esta ainda não altera aquilo que pensamos e sentimos, sendo os nossos pensamentos (negativos e disfuncionais) na maior parte das vezes os causadores da sintomatologia. O resultado são anos a fio a tomar uma medicação que pouco fará quando não existe paralelamente um processo psicoterapêutico.

Pode falar-nos dos números em Portugal?
A depressão é uma das patologias psicológicas mais frequente, ou até mesmo a mais frequente. É das principais causas de incapacidade e afeta 10 a 20 por cento da população portuguesa. Contudo, estima-se que existam muitas depressões não diagnosticadas.

A depressão infantil existe?
A depressão infantil existe, contudo, a maioria das crianças são muito novas para se aperceberem que estão deprimidas e para descreverem o que sentem. Quando falamos em crianças e adolescentes, o principal sintoma de uma depressão incide na falta de interesse por divertimentos e brincadeiras, não tendo interesse pela vida. Além disto a criança pode manifestar problemas comportamentais como fraco desempenho na escola, evitamento escolar, pesadelos e enurese. Pode igualmente manifestar comportamentos agressivos, falta de atenção e sentimentos de perda, deceção e tristeza. Contrariamente à crença geral, a depressão infantil não é rara, porém a eficácia dos antidepressivos é pouca. Devem assim ser consideradas estratégias práticas como a terapia cognitivo-comportamental para tratar estas crianças. Existe um elevado número de crianças deprimidas devido a problemas relacionados com as dificuldades da vida. Nestes casos, a melhor forma de tratamento é ensiná-las a lidar com os seus problemas, auxiliando-as a enfrentarem-nos.

Que outras doenças podem ser confundidas com a depressão?
Por vezes a depressão é confundida com os sintomas depressivos que surgem secundariamente a estados físicos ou até mesmo a caraterísticas de personalidade. Neste caso, não estamos perante uma depressão, mas sim outra problemática que origina uma depressão secundária. O abuso de substâncias pode igualmente gerar sintomas semelhantes, assim como o luto patológico. No caso de pessoas mais velhas, as demências são muitas vezes confundidas com depressão, uma vez que há sintomas idênticos, como por exemplo as alterações de memória e de humor.

Que medidas devem as pessoas tomar para prevenir depressão?
Como em qualquer doença, prevenir é o melhor remédio, sobretudo quando existe histórico de depressão ou outros fatores de risco como o acontecimento de uma situação traumática ou de frustração. A deteção precoce impedirá muitas vezes o agudizar de sintomas e o surgimento da depressão enquanto quadro diagnóstico. No nosso dia a dia devemos valorizar as coisas boas que temos à nossa volta, assim como reconhecer as nossas qualidades e aquilo em que somos bons. Por norma, tendemos a centrar-nos nos nossos defeitos e nas coisas menos boas que nos acontecem. Outra dica é desenvolver a resiliência (capacidade superar obstáculos), pois através dela será mais fácil procurar caminhos alternativos e não desmotivar face à adversidade. Além disto, é importante que mantenhamos uma rede de suporte social (amigos e família), já que sozinhos se torna mais difícil ultrapassar obstáculos e ser felizes. Será igualmente positivo encontrar um propósito para o nosso dia a dia, ter objetivos (mesmo que tenhamos que os alterar muitas vezes) e lutar para os alcançar.

Que conselho daria a alguém que pensa que está deprimido?
Em primeiro lugar, partilhe os seus sintomas com as pessoas que lhe são mais próximas. O suporte familiar é um fator fundamental para ultrapassar a depressão. Em segundo lugar, peça ajuda especializada. A depressão não é apenas um obstáculo ou um problema, é uma doença e, como tal, deve ser tratada convenientemente com a ajuda de um profissional. Comece por marcar a sua consulta com um psicólogo que fará a avaliação adequada dos sintomas depressivos e aconselhará a melhor forma de tratamento. Se este achar conveniente encaminhará para a área médica, a fim de ser medicado. Por fim, seja resiliente e enfrente a doença ao invés de se deixar vencer por ela. Se pensar, tem muitas coisas boas na sua vida. A dificuldade por vezes está em tomar consciência das coisas boas que temos.

Aprenda a identificar os “Sintomas da Depressão“.

Por Joana de Sousa Costa

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