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Carrinha-mercearia: melhor, só se preparar o jantar

Com a pandemia, as soluções móveis, contactless e hiper convenientes atingiram um pico, muito alimentadas pela mudança de preferência do consumidor.

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Esta semana, a propósito de um projeto profissional, bateu aquela nostalgia do tempo em que passava as tardes em casa da minha avó paterna e tinha a sorte de ser o dia em que passava a carrinha da mercearia 🚚.

 

Aquela carrinha era mágica! Trazia fruta, legumes, arroz, massa, enlatados, já não me recordo bem, mas creio que também detergentes e outros produtos de drogaria (OMO e Sabão Azul muito possivelmente) e higiene pessoal. E, aqui, a parte que me lembro e me faz sorrir: doçaria, como bombocas, chocolates e sugos!!!

 

Tenho uma memória olfativa muito clara daquela carrinha, para além da visual (tinha uma balança de pesos na frente e cabia imensa coisa lá dentro).

 

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Os meus avós moravam numa aldeia, onde ainda hoje vive o meu pai, que na altura parecia mais longe do centro da vila (hoje elevada a cidade) do que era na realidade. As estradas agora são melhores e os carros também, a bem da verdade. Se calhar por isso a noção de distância me parece diferente!

 

Eles não iam com muita frequência ao centro para as compras grandes e na aldeia havia apenas uma “loja” (pequeno comércio que vendia um pouco de tudo, onde íamos de bicicleta comprar chocolate da marca Avianense ao quadrado: “D. Maria, quero 2 quadrados de chocolate, por favor, e um pão” – está-se mesmo a ver o que ia sair para o lanche, não? Que maravilha!) pelo que, a carrinha da mercearia era uma boa ajuda para colmatar as falhas de produtos que não tinham, de cultivo ou criação própria, e precisavam ser repostos entre idas ao supermercado.

 

Nessa altura, a carrinha que buzinava pelas ruas da aldeia anunciando a sua chegada, aproximava a população do retalho levando conveniência até zonas mais rurais, tal como vimos anos mais tarde acontecer com as carrinhas do ‘Family Frost’, que andavam não só em zonas rurais, mas também urbanas.

 

Para o tal projeto profissional, chegou-me às mãos o trabalho que uma start-up de Toronto está a desenvolver e que achei muito interessante.  A “Grocery Neighbor” (numa tradução literal, “A mercearia Vizinha”) oferece um supermercado sobre rodas no bairro, entregando conveniência à porta.

 

Para um bairro receber a mercearia tem de “votar” este serviço no site da empresa. Depois, através de uma APP os clientes são notificados quando a loja está na sua rua ou perto do seu bairro. A loja oferece carne e peixe frescos, frutas e legumes, laticínios, produtos cozinhados e até produtos e especialidades locais. O cliente entra na loja, fazendo o check-in com a App, seleciona os produtos que deseja levar (através de uma tecnologia estilo Grab&Go, com reconhecimento de objetos e tecnologia móvel de auto-verificação) e faz o check-out usando também o telefone. É entrar, pegar e sair.

A “Grocery Neighbor” desenvolveu-se durante o pico da pandemia e é fácil perceber porquê. Com este formato de conveniência, foi possível fazer chegar produtos alimentares frescos às populações, dando-lhes a possibilidade de verem, sentirem e escolherem os seus produtos (ao contrário do que acontece por exemplo numa compra de mercearia online), sem terem de correr o risco de se misturarem em grandes grupos.

 

De acordo com Frank Sinopoli, o fundador da Grocery Neighbor, “o confinamento inspirou-nos, mas não nos limita” e “o tempo permanecerá sempre a coisa mais preciosa que temos, e a conveniência ganha a maioria das batalhas” diz ele. Só posso concordar.

 

A verdade é que este tipo de modelo de loja autónoma aparece nesta altura, mas como resultado de uma mudança generalizada no retalho que se vinha a sentir já antes da pandemia, muito por força da procura de experiências mais tecnológicas.

 

Com a pandemia, as soluções móveis, contactless e hiper-convenientes atingiram um pico, muito alimentada pela mudança de preferência do consumidor.

 

Vantagens das mercearias móveis:

  • Economia de tempo: a loja vem até ao cliente notificando-o da chegada o que lhe permite gerir melhor o seu tempo de espera.
  • Seguras (Era pandémica): check-out sem contacto, sem filas ou aglomeração de pessoas (apenas são autorizados 5 clientes de cada vez, os carrinhos de compras rolam num carril que assegura a distância social).
  • Sem desperdício: os clientes são convidados a utilizar os seus próprios recipientes de transporte reduzindo o desperdício.
  • Portfólio adaptado bairra-a-bairro: é possível personalizar a oferta a cada bairro, a cada rota da mercearia, com base no comportamento e dados dos consumidores.
  • Inovação: adaptação às necessidades e pontos de dor das comunidades.

 

Desafios das mercearias móveis:

  • Estacionamento não central: alguns bairros obrigam o estacionamento em zonas próprias que obrigam a que o consumidor conduza até lá.
  • Cadeias logísticas difíceis
  • Preço elevado dos productos

 

Tal como há 30 anos a carrinha da mercearia aproximava a aldeia da vila, hoje há inovação a aproximar os consumidores do retalho alimentar!  A “Grocery Neighbor” é um exemplo bem vivo disso. E um exemplo de que podemos (e devemos) ir às gavetas da memória procurar por estas soluções que facilitavam no passado a vida da comunidade porque, pelo que se percebe, não estamos muito longe de precisar dessas ajudas novamente.

 

Apesar de não ser um formato novo, a mercearia móvel tem atualizações inteligentes (e modernas) que demonstram preocupações não só com as questões da pandemia, mas também com os novos estilos de vida do consumidor moderno preocupado com o bem-estar, a alimentação saudável, a procura pelo produto local e por soluções mais rápidas e eficientes. Temos de estar atentos e disponíveis para abraçar a mudança e liderar o caminho.

 

Aproveito o momento nostalgia, para homenagear os meus avós paternos retratados neste artigo, a avó Ilda e o avô Albérico, que, para além de me mimarem com guloseimas nos dias da carrinha da mercearia o faziam sempre que podiam. Pelo menos sempre que aparecíamos em cima da bicicleta prontos para lanchar um pão com manteiga e açúcar que só nos era permitido lá. Vá-se lá saber porquê. Boas lembranças. Um abraço a todos os avós e a todos os vizinhos que nos acompanhavam nos passeios de bicicleta aldeia fora nas férias de verão.

 

A mercearia vizinha pode ser uma boa companhia. No meu bairro ou no vosso. Quem sabe não é um modelo de negócio que chega até cá! Até lá, arranjemos bons vizinhos que nos façam o jantar. É mais seguro que esses nos põem a comida na mesa 😎.

 

 

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