Home»S-Vida»Cancro do pâncreas: a importância do diagnóstico precoce

Cancro do pâncreas: a importância do diagnóstico precoce

É notório que em poucas patologias oncológicas se reconhece, duma forma tão vincada, a necessidade de introduzir terapêuticas inovadoras na prática clínica, que modifiquem os resultados tão modestos nas sobrevidas globais obtidos pelas práticas contemporâneas. Hoje assinala-se o Dia Mundial do Cancro do Pâncreas.

Pinterest Google+
PUB

Em 1999 morria em Nova Iorque Marc Lustgarten, um empresário de sucesso na área das novas tecnologias, vítima de cancro do pâncreas. Aos 52 anos de idade, um ano apenas desde o diagnóstico, chegava ao fim a sua luta pela vida, rodeado pela família e pelos seus estimados amigos, sempre acompanhado por um grupo de profissionais de saúde de excelência, numa instituição oncológica de referência mundial.

 

Antes de partir, Marc determinou que o seu sofrimento deixaria de o ser no momento em que se lhe descobrisse um sentido: esse projeto levou à criação da Fundação que tem o seu nome, tornando-se na maior instituição mundial dedicada à investigação do cancro do pâncreas.

 

A Fundação Lustgarten foi fundada numa época de incerteza, em que a investigação neste tipo de tumores não atraía financiamento relevante nem a atenção dos investigadores, justificando a então designação de “doença órfã”: a sua grande agressividade e a escassez de recursos terapêuticos condicionavam os resultados desfavoráveis, frustrando as expectativas e desmotivando a comunidade científica.

 

VEJA TAMBÉM: ‘E COMO ESTÁ O MEU PÂNCREAS SR. DOUTOR?’

 

É notório que em poucas patologias oncológicas se reconhece, duma forma tão vincada, a necessidade de introduzir terapêuticas inovadoras na prática clínica, que modifiquem os resultados tão modestos nas sobrevidas globais obtidos pelas práticas contemporâneas.

 

Progressivamente foram surgindo avanços na compreensão desta doença, que serviram de estímulo à investigação em todo o mundo, desde a descodificação do genoma tumoral à descoberta de modelos animais com vista a testar terapêuticas inovadoras em Biologia Molecular. Longe vão os tempos em que os cientistas se sentiam menos motivados em investigação básica nesta área desafiante.

 

A par e passo com os consecutivos sucessos nestas áreas inovadoras, tem-se assistido a importantes progressos nas áreas do diagnóstico precoce, baseado em imagem e em análises laboratoriais sofisticadas de múltiplos fluidos biológicos, em que o contributo de algoritmos de inteligência artificial dá os primeiros passos e que se estima venha a ser progressivamente mais importante.

 

VEJA TAMBÉM: CANCRO DO PÂNCREAS – UMA DOENÇA EM QUE AINDA HÁ MUITO A FAZER

 

Estas e outras inovações em oncologia resultaram num aumento significativo de doentes em que a terapêutica cirúrgica (a única que pode garantir sobrevidas a médio e longo prazo) está indicada. A nova realidade, em conjunto com um aumento progressivo de novos casos diagnosticados ano após ano, conduziu a uma maior segurança e eficácia da cirurgia pancreática. Equipas médicas e instituições de referência estão hoje mais aptas a tratar estes doentes com melhores resultados a todos os níveis.

 

Será sempre nossa responsabilidade alertar para a importância do diagnóstico precoce bem como para a conjugação de esforços dos vários intervenientes no combate a esta entidade, desde os cuidados primários de saúde aos centros de referência hospitalares. Assim como se reconhece o papel fundamental da divulgação dos sinais clínicos precoces da doença: perda de apetite e de peso, coloração amarela da pele e dos olhos, dor abdominal ou lombar, dificuldade em fazer a digestão, alterações das fezes ou diabetes recente. Como sempre, continuaremos com a responsabilidade de praticar onco-cirurgia pancreática com as indicações protocolizadas e com os padrões de segurança exigíveis por consenso aos centros de referência.

 

Até dispormos de terapêuticas dirigidas e inovadoras baseadas nos conhecimentos que acumulamos em biologia molecular, continuaremos com a frustração de não podermos curar a grande maioria dos doentes que nos procuram em desespero. São ainda escassos os desenlaces que nos fazem sorrir, sejamos profissionais de saúde, doentes, familiares ou amigos. Mas um dia todos seremos recompensados pelo nosso sofrimento coletivo: “Deus guarda todas as nossas lágrimas”.

 

Por Jorge Paulino

Cirurgia Pancreática

Centro Hepato-Biliar-Pancreático e Transplante

Hospital Curry Cabral

 

Artigo anterior

Lanchar: a tábua de salvação para dias ativos

Próximo artigo

As crianças também têm direitos e estão estipulados desde 1959