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Bem-vindos ao mundo atarefado dos miúdos

O dia a dia dos miúdos corre a uma velocidade alucinante onde o tempo é cronometrado quase ao segundo e o fantasma da inatividade assombra miúdos e graúdos. No cumprimento da agenda desenhada pelos adultos não sobra tempo para o autoconhecimento.

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Partida, largada…. Fugida! Acordar, preparar, smartphone no carro, escola, futebol, dança e guitarra, tpc, explicações, tablet enquanto espera pelo jantar, dormir e a televisão no quarto desliga em modo automático! Ainda têm fôlego? É fim de semana, há jogo de futebol de manhã, a festa de aniversário do João, escuteiros, catequese e o almoço de família na casa da avó e para os tempos mortos (se ainda sobrar tempo para eles), tecnologia à discrição.

 

O dia a dia dos miúdos corre a uma velocidade alucinante onde o tempo é cronometrado quase ao segundo e o fantasma da inatividade assombra miúdos e graúdos. No cumprimento da agenda desenhada pelos adultos não sobra tempo para o autoconhecimento. O tiquetaque do relógio, abafa o tumtum que bate no peito e não permite que se sinta, que se lide com os sentimentos e que se aprenda a ultrapassar estas sensações “esquisitas” que surgem quando descemos da montanha-russa.

 

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É nesta azáfama que surge um novo conceito, o stress infantil. As dores de barriga, as birras, a desobediência, as unhas roídas, resultado duma busca constante por não parar, por ter sempre o que fazer, por querer estímulos novos quando os que existem se desvanecem na força do hábito. A instabilidade e a insatisfação diária, o receio de falhar e o medo de dizer que afinal, “não vai à bola” com a bola!

 

A ausência do dolce far niente torna as crianças seres autómatos, fechados em gaiolas sem saberem voar em céu aberto, com o mundo na palma das mãos, mas sem nada saberem do seu próprio mundo. Os miúdos não têm tempo para a quietude, para a calmaria e para passarem tempo consigo mesmas e ouvirem a sua própria voz e esquecemo-nos que é, exatamente, neste ambiente que os sentimentos e as emoções se revelam e tomamos consciência delas e do que elas nos fazem, para o bem e para o mal.

 

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É nestes momentos que se fica a saber que as lágrimas não se limpam apenas no papel de embrulho de mais uma prenda e que a alegria vai mais além que chegar ao último nível de um qualquer jogo de consola. É, também, no barulho ensurdecedor do silêncio que a criatividade se faz ouvir, alto e em bom som e as crianças se vestem de artistas, cantores e atores, deixando a fantasia, os confettis e as purpurinas tomarem conta do espaço. E assim, saberão quem são e mais importante ainda, quem e o que querem ser.

 

Desengane-se, porém, o leitor que já está à procura de uma ilha deserta para onde poderá enviar os catraios em retiro, tudo se faz a seu tempo e com peso, conta e medida, tudo contribui para um desenvolvimento saudável. No entanto, há que marcar na agenda o tempo de não ter nada para fazer, de os miúdos ficarem entediados e lidarem com o aborrecimento, para fazerem por si e para si. O tempo em que devem deixar de ser adultos em miniatura, para serem crianças, na verdadeira aceção da palavra. Então que se aborreçam e que o tédio conquiste o seu lugar. Tiremos o fantasma da inatividade debaixo da cama e deixemos que brinque com as nossas crianças, pois o que elas precisam é, exatamente isso, brincar.

 

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Brincar, despojadas de estímulos físicos, de horários, de espaços fechados, de guiões e de obrigações. Livres, leves e soltas, aprendendo a criar, a inventar, a sonhar e a divertir-se. É necessário criar as condições para que as crianças entrem no seu próprio mundo encantado e sejam “reis, princesas, dragões” e se conheçam, se relacionem consigo próprias e percebam que podem ser a sua melhor companhia e que é possível andar de baloiço sem alguém que nos empurre, para que, a partir daí, conheçam os outros e melhor se relacionem com eles.

 

Da próxima vez que ouvir uma criança dizer “Que chatice, não tenho nada para fazer”, alegre-se e prolongue o momento. Aprecie(m) a construção dos castelos, fortes e navios, feitos com almofadas e papelão, que se irão erguer no quarto ou no jardim, a vassoura que se tornará cavalo e a escova que será microfone. Já agora, aproveite e entre com eles nesse novo mundo, talvez pelo caminho, tenha a sorte de ser criança outra vez!

 

Por Sónia Santos

Psicóloga

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