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Ayurveda, longevidade e morte: Cuidados paliativos e preparação para uma boa transição

Longevidade. A palavra longevidade reporta-nos ao tempo que temos ainda para caminhar e aprender na Terra. Na Ayurveda, os cuidados para a longevidade estão intrínsecos ao conceito de qualidade de vida e de prevenção, e estão presentes desde que nascemos neste mundo.

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O primeiro capítulo do Charaka Samhita, um dos tratados mais antigo de Ayurveda, é chamado de “A busca pela longevidade”, e embora a longevidade seja diferente de imortalidade, na Ayurveda aceita-se que todos nós temos etapas evolutivas na nossa vida física, e se desejamos aspirar a estados superiores de consciência podemos fazê-lo através de práticas de yoga, e através da Ayurveda, que se apresenta como um guia para alcançar a saúde e a autorrealização para toda a vida.

 

Recomendações para a Longevidade

Existem formas simples e quotidianas de preservar a nossa energia e aumentarmos a nossa longevidade que podem ser observadas na nossa rotina diária.

 

Seguirmos o ciclo do sol. Acordarmos de madrugada. Ouvirmos os pássaros. Reservarmos um momento para nos concentrarmos e meditarmos antes de começarmos o dia. A vida é preciosa; o momento que tomamos para nos maravilharmos com a magnificência do nascer do sol, e para honrar a oportunidade de viver cada dia com propósito, permite-nos acrescentar conteúdo a cada minuto que vivemos.

 

Descansar. As pesquisas atuais confirmam algo que a Ayurveda tem ensinado por milhares de anos – que o sono mais benéfico acontece entre 20h e as 4h. Regra prática: irmos para a cama duas horas após o pôr do sol e acordar ao nascer do sol. Isso significa que dormimos mais no Inverno e menos no Verão. Ao seguirmos esta regra, poderemos acordar sentindo-nos revigorados, energizados e prontos para lidarmos com o mundo com um sorriso descansado no rosto.

 

Comermos comida verdadeira. Tanto quanto possível, comermos produtos frescos locais, grãos e leguminosas, e consumirmos produtos de origem vegetal orgânicos, laticínios orgânicos, e produtos de origem animal com respeito pela forma como foram criados.

 

Passarmos algum tempo na natureza. É a melhor forma de refrescarmos os sentidos, de reajustarmos a mente, e de cuidarmos do sistema nervoso. Desligarmos a televisão e o telefone, afastarmo-nos do laptop e sairmos para a natureza. Escolhermos fazer uma curta caminhada durante a hora do almoço ou depois do jantar. Sairmos algumas vezes por dia e desfrutarmos de três longas respirações profundas. Deixarmos o nosso olhar descansar no que está fora da janela, desfrutarmos de uma bela contemplação e meditação matinal. Relaxarmos próximos de uma árvore ou de um riacho. Quem mora numa área metropolitana, pode ir até o parque mais próximo e observar as formas dos galhos e das folhas das árvores. O importante é admirar o mundo natural.

 

Longevidade e morte na Ayurveda

A nossa atitude em relação à morte está intrinsecamente ligada à nossa expectativa de longevidade, muito embora nem todas as pessoas vivam até à velhice. O Atharvaveda, um dos quatro Vedas originais, contêm hinos ou orações para alcançar a longevidade, e o próprio termo Ayurveda que significa “conhecimento da vida”, e no mais seu puro sentido médico, muito para além do sentido metafísico, foca-se no aumento da longevidade, e no proporcionar as condições para uma vida longa e feliz.

 

Na Ayurveda a moderação é a chave para a longevidade e para uma boa morte. No Charaka Samhita explora-se medicamente a longevidade, tendo sido concebidos medicamentos específicos para a manutenção da idade que fazem parte da sua farmacopeia, ao mesmo tempo que reconhece os aspetos psicológicos e espirituais, e os impedimentos potenciais causados pelas doenças. No Śārīasthāna, o Charaka descreve o exame do recém-nascido em busca da aparências e comportamentos associados à longevidade, já que os rituais de longevidade começam ainda na infância.

 

Na tradição espiritual a longevidade também está relacionada com as ações realizadas na vida presente (purusakāra) e em vidas anteriores, e o Charaka usa alternadamente os termos karma e daiva (destino) para responder a situações que transcendem a possibilidade de cuidados médicos. As doenças kármicas são então trabalhadas e saldadas através de reflexão e entrega ao trabalho interior.

 

Quando surgem aspetos positivos suficientes tanto do karma como do destino, as experiências vividas estão associados a uma vida longa e feliz. Charaka observa que se o nosso tempo de vida fosse completamente predeterminado, seriam desnecessárias as práticas rituais, como os mantras, a expiação e o jejum para melhorá-lo, nem seria necessário tomar precauções como evitar répteis venenosos, inimigos ou animais ferozes. Ele compara o corpo ao eixo de um veículo: se corretamente usado, o veículo desgasta-se gradualmente, contudo se for conduzido de forma inadequada, fazendo-se mau uso do corpo (prajñā-aparādha, uso incorreto dos órgãos dos sentidos), o eixo pode desgastar-se e partir de forma prematura. A medicina pode trazer muitos benefícios, contudo, os efeitos de um karma menos positivo são considerados desafiantes de evitar.

 

O Charaka afirma que a velhice começa aos sessenta anos e pode chegar aos 100 anos, e durante a velhice, os tecidos do corpo (dhātus), os órgãos dos sentidos, a força, a energia, a virilidade e outras funções corporais diminuem gradualmente. A velhice também é concebida como uma das seis enfermidades e está associada à fome, à sede, à tristeza e à morte.

 

Com o aproximar da morte, o processo de destruição é iniciado no corpo, e as funções de vários membros e órgãos do corpo são perturbadas, dando início à drenagem de força dos membros, à cessação do movimento, à destruição do sensorial/tátil, ao comprometimento da consciência, à inquietação da mente, à aflição da mente com medo, à privação da memória e do intelecto, à mudança radical de conduta, à perda de tecido muscular e sangue, às mudanças mórbidas no odor do corpo e a sua descoloração, à secura nos orifícios do corpo, muitos deles sintomas do aumento do Vata, dosha do Ar, do vento, do subtil, do etérico em aproximação.

 

Fazer do ato de morrer uma obra de arte

Pensarmos na nossa morte é ainda um tema desconfortável e associado a um dos medos mais comuns no Ser humano, constituindo um assunto quase tabu. A cultura ocidental tem um foco no conceito mais solar da Vida, deixando pouco espaço para a profunda integração diária do conceito que nos traz sentido, significado e profundidade a cada dia que vivemos: a morte.

 

“A morte só é bela para aqueles que viveram com beleza, que não tiveram medo de viver, que foram suficientemente corajosos para viver – que amaram, que dançaram, que celebraram. A morte chama-se a derradeira celebração. Por outras palavras: o que quer que a sua vida tenha sido, a morte revela-o.” Osho, “A Vida, o Amor e o Riso”

 

As culturas que integram a aceitação da morte nas suas rotinas diárias, prezam com maior atenção pelas suas palavras, ações, ligações e relações, e estruturam o seu quotidiano, com a consciência de que todos os dias são bons dias para serem o último das suas vidas. A morte, o ato de bem morrer e a imortalidade aparecem desde sempre ligados aos campos cultural e religioso, para além de estarem naturalmente aliados ao campo médico, em muitas civilizações ao longo de milhares de anos.

 

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