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Ayurveda e o amor romântico equilibrado

A qualidade da relação e o desenvolvimento do enamoramento para o amor romântico são etapas da nossa vida que podem perturbar bastante o equilíbrio do nosso quotidiano.

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Valores do relacionamento

Um relacionamento equilibrado é construído sobre os Valores intrínsecos a cada pessoa, e variam de acordo com a nossa educação, o nosso enquadramento social e a nossa Constituição psicofisiológica (doshas). Onde o Vata pela sua natureza mais leve, pode valorizar a Criatividade, a Liberdade, e a Comunicação no outro, um Pitta pode sentir-me mais atraído pela Verdade, a Lealdade, e o Respeito do seu parceiro, e o Kapha irá naturalmente valorizar a Generosidade, Segurança, e Confiança da sua cara metade.

 

Podemos, por isso, começarmos por aceitar que uma boa conversa sobre os nossos diferentes Valores, a sua importância, e o seu significado íntimo na nossa vida, é fundamental para sedimentarmos uma base de convergência e consonância do Propósito de vida em comum.

 

O florescimento de qualquer relacionamento nasce do auto-compromisso, de uma estrutura de Valores enraizada que está disponível para ser partilhada e comunicada. O encontro de resiliências comuns permite o ultrapassar dos desafios mundanos e comuns das relações, e a preservação da individualidade, do espaço, da liberdade, e da privacidade de cada um.

 

É bom recordar que todos temos os três Doshas na nossa constituição, somos influenciados pelas diferentes proporções que temos de cada um deles, que por sua vez têm impacto na forma como construímos as nossas relações. É por isso fundamental criarmos a fundação do Amor romântico com base nos valores convergentes do casal.

 

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A Comunicação é talvez o primeiro grande valor que permite que dois seres diferentes, de origens distintas, e universos interiores diferenciados, encontrem uma ponte, uma ligação, que desenvolve a concordância e o acesso ao espaço mais íntimo, profundo e resguardado do outro. Onde um Vata pode ter uma facilidade natural em exprimir o que pensa, nem sempre encontra a mesma facilidade na expressão do que sente, já que a sua natureza é mais mental. Um Pitta pode comunicar de forma demasiado assertiva, ferindo e magoando com a aspereza  das suas palavras acutilantes, faltando-lhe alguma suavidade e polidez. O Kapha está mais em contacto com as suas emoções, sendo macio e doce na sua comunicação; carece, contudo, da facilidade e da coragem de dar voz firme às suas palavras.

 

Os desafios de comunicação são dos primeiros a criar um fosso de separação entre os mundos internos individuais, e a produzir a sensação de afastamento. Conhecermos a matriz da comunicação do nosso parceiro permite-nos relevarmos e compreendermos o outro, incentivando-o e dando-lhe a segurança para desenvolver a sua faceta de expressão em falta.

 

Estabelecermos os Limites é crucial para uma relação equilibrada. O desafio inicial da edificação dos limites está no próprio auto-conhecimento. No aflorar de uma relação estamos muitas vezes sobre uma aura de encantamento (Ludus) e atração (Eros), que nos impede de percecionarmos a necessidade de estabelecermos limites. Contudo, quanto mais claros forem os nossos limites, mais tranquila e segura é a resposta emocional do outro dentro da relação.

 

Para a constituição Pitta é relativamente fácil estabelecer limites, e manter a sua privacidade. Contudo, a ligeireza e espacialidade do Vata, e a condescendência e generosidade do Kapha podem tornar-lhes desafiantes a estruturação dos limites da relação, razão pela qual devem tomar consciência dessa necessidade e procurarem assumi-la como importante para a qualificação de uma relação saudável.

 

Tal como os Limites, as Regras do Relação, são os parâmetros, muitas vezes íntimos, e por partilhar, que fazem com que a relação de facto funcione. Conhecermos os limites, e aplicarmos as rotinas e as predisposições que servem os interesses, as capacidades, e o à vontade de cada um, para que como indivíduos sintamos as nossas necessidades supridas, saciadas, nutridas e estabilizadas.

 

Os Pitta têm habitualmente facilidade em aceitar as regras da relação, já que são eles próprios exímios na execução, às vezes demasiado excessiva e meticulosa, das mesmas. Para o Vata, a palavra Regras, despoleta habitualmente, a sua natural alergia a rotinas, e a sua tendência a esquecerem-se do que ficou combinado, aspeto que será essencial trabalharem na relação. Para o Kapha o desafio será serem fiéis ao cumprimento das regras, mais pela sua inércia e complacência, vertente a que têm de ter em atenção para o equilíbrio e sucesso da relação.

 

Costuma-se dizer que a Confiança é desafiante de construir e fácil de derrubar, pelo que torna-se também um aspeto importante da relação. Os parceiros Kapha tendem a ser o mais dignos de confiança pelas suas qualidades naturais de suporte e estrutura. Já os Pitta mantém as sua Confiança associada a valores como Verdade e Respeito, as quais também mantêm com facilidade. Para os Vata, o valor da Confiança é desafiante devido à sua natureza volátil e instável.

 

O Compromisso é um valor inerente a uma relação durável. Mais do que o compromisso com o outro, o comprometimento é para connosco mesmos. Só quem é fiel a si próprio, aos seus Valores, ao seu Propósito, pode trazer o ideal de compromisso para a relação. O Kapha pela sua natureza estável, e o Pitta pela fidelidade aos seus Princípios tendem facilmente ao compromisso. O Vata pode sentir-se um pouco sufocado com a ideia de se comprometer, e pode ter de encontrar dentro de si a sua própria necessidade de estabilidade, para se permitir a um compromisso efetivo. De qualquer forma, o conceito de compromisso tem limites diferentes para diferentes pessoas, e dependem da sua educação, e da sua cultura, pelo que há que manter espaço e criatividade para a aceitação desse resiliente caminho construído a dois.

 

De mãos dadas com o compromisso, vem a preservação da Liberdade e da Independência de cada um. A liberdade nasce da capacidade de nos auto-responsabilizarmos pelas nossas ações e intenções, e pelo impacto que têm na relação. O relacionamento equilibrado é aquele onde necessariamente existe liberdade, já que ela traz implícita e inerente a confiança no outro. Por outro lado, ambos devem realmente sentir-se livres para serem quem são dentro da relação, porque de outra forma, a falta de liberdade sufoca a criatividade, a autenticidade, a leveza e o encanto do relacionamento amoroso. Uma relação onde há liberdade é aquela onde existe também frescura, novidade e renovação. O tempo que cada um tem para si próprio torna-se uma Inspiração para uma entusiasmada partilha a dois.

 

O Vata tende a procurar facilmente essa liberdade dentro da relação, onde o Pitta, pela sua tendência ao ciúme, e o Kapha, pela sua propensão ao apego, precisam de exercitar o respeito pelo espaço do outro.

 

As relações duráveis são um campo onde a Aceitação ganhou raízes. Aceitar o outro implica perdoar incondicionalmente as linhas menos direitas por onde as aprendizagens do seu caminho foram sendo realizadas, e compreender que todos vamos fazendo o melhor que sabemos, de acordo com o que acreditamos que podemos, e no limite dos nossos recursos. Só é possível aceitarmos o nosso parceiro, se nos aceitarmos a nós próprios. A aceitação é resultado da experiência, das tormentas alquimizadas, e é o fruto da compaixão pelos desafios do outro, agindo como um bálsamo que atenua as inseguranças e as reações do nosso ego, no decurso dos obstáculos mundanos da relação. Na aceitação, a vontade do Coração prevalece sobre a mente, e o Amor encontra nela uma bela e honrada expressão.

 

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A Consciência e a vontade de Evoluir são valores cada vez mais imprescindíveis e elevados nos bons relacionamentos amorosos. Quanto mais Consciência houver mais fácil se torna comunicação, o trabalho conjunto nas áreas que carecem de convergência e compatibilidade, e o suporte para a mútua evolução, e o crescimento espiritual individual. Com Consciência torna-se mais fácil o casal fomentar o Amor, a Verdade, a Beleza, a Criatividade, a Empatia, a Inspiração, a Paz, a Intimidade que consolidam a relação. Na Ayurveda, o casal é a base da Comunidade, e um casal feliz produz a base para a felicidade de toda a Sociedade.

 

Compatibilidade nos relacionamentos amorosos

Na Ayurveda compreende-se que cada relacionamento tende a ser necessariamente diferente, já que os indivíduos tendem também a ter constituições diferenciadas. Conhecermos as nossas predisposições e as dos nossos parceiros pode fazer a grande diferença na qualidade e felicidade do relacionamento.

 

O Vata tende a ser mutável, leve, encantador, criativo e imprevisível. Contudo, se encontrar um parceiro Pitta, que prima pela ordem e pela assertividade, ambos terão de trabalhar as suas diferenças, porque de outra forma podem sentir-se bastante desconfortáveis e desvalorizados nas suas diferentes capacidades e naturezas. Se o encontro for com um Kapha, que tende a ser estável, estruturado e carinhoso, o Vata pode sentir-se acolhido, contudo, o Kapha pode ficar desconcertado com a falta de retribuição, e com a mutabilidade do Vata.

 

A verdadeira compatibilidade passa pelo assumir e aceitar a nossa constituição matriz,  procurarmos trazermos as nossas melhores qualidades para a relação, assim como propormo-nos a trabalharmos ativamente no complementar de algumas características, e na integração de novos pequenos hábitos que fazem toda a diferença, tanto a nível individual, como na relação.

 

Sugestões para uma convergência amorosa

É importante tornarmos o quotidiano rico com alguns apontamentos de nutrição relacional. Como as plantas, a relação carece de cuidado, de mimo, e alimento regular para se manter saudável. Criar o hábito de harmonizar o quotidiano é uma das formas de manter o equilíbrio da relação. Eis algumas sugestões:

 

– Confecionarmos refeições juntos é uma forma de aprendermos um com o outro sobre os diferentes sabores que cada um valoriza, ajudando também a desenvolvermos hábitos alimentares saudáveis.

– Cultivarmos momentos de silêncio, ou eventualmente ao som de música suave, meditativa ou  mantras, que fomenta, uma vibração de harmonia tanto na casa, como na mente, sossegando o Vata.

– Realizarmos escolhas sábias e orgânicas para cada etapa da rotina diária, e para a gestão do tempo familiar, mantendo o respeito pela disponibilidade, necessidades e valores de cada um.

– Nutrirmos o descanso, a pausa a dois, já que o quotidiano atual exige muita atividade, e o stress interno tende a gerar divergências e separação.

– Cuidarmos e mimarmos o outro, é uma forma de dar corpo ao Amor, e de oferecer o reconhecimento e a apreciação ao parceiro. A apreciação mútua nutre o relacionamento, e predispõe o casal para a relação, para o encontro, e até para a intimidade.

– Escutarmos o parceiro é uma arte fundamental dentro da relação. Por vezes, o ritmo do dia-a-dia impede-nos de serenarmos o suficiente para ouvirmos o que o outro tem para dizer, e irmos de encontro à sua necessidade de suporte e compreensão. Quando encontramos alguém que nos ouve sentimos o inestimável sentimento de pertença.

– Estarmos Presentes é das qualidades mais apreciadas na relação. É de valor inestimável a sensação de podemos contar com o outro para nos confortar e alentar nos momentos desafiantes, e para celebrar connosco, os momentos mais brilhantes e significativos da Vida.

– Respirarmos fundo, inspirarmos Paciência e Tolerância, expirarmos ego e tensão.

– Encontrarmos momentos de Meditação conjunta ou isolada, que ajudem na consolidação do Amor, na estruturação da Comunicação, e na edificação da Harmonia conjugal.

 

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