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As sequelas que a COVID pode deixar

Estima-se que mais de 50% dos indivíduos após a infeção possam manter algum tipo de queixa, sendo os sintomas mais comum cansaço, dor crónica, dores musculares e falta de ar. Nalgumas situações estes sintomas podem apresentar-se de forma intensa ao ponto de condicionar incapacidade e impactar profundamente na qualidade de vida e na reinserção social e profissional.

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Desde o seu aparecimento no início do ano passado, a infeção pelo novo coronavírus tem representado um dos maiores desafios que a medicina moderna teve de enfrentar. A infeção é caraterizada por uma elevada transmissibilidade que a torna facilmente propagável na comunidade e uma grande variabilidade de apresentação relacionada com a idade e estado geral do indivíduo, mas também com fatores genéticos que faz com que a doença seja quase impercetível ou ligeira em muitos casos mas extremamente agressiva em outros obrigando ao internamento.

 

A via aérea representa o principal modo de transmissão do vírus de maneira que o aparelho respiratório é o principal órgão afetado pela doença. Se na maioria dos casos a infeção se manifesta com sintomas banais e mais comuns de febre, dor de garganta e tosse, o coronavírus ou a resposta do organismo ao seu ataque podem causar sintomas respiratórios graves predominantemente falta de ar e ameaçar outros órgãos de importância vital como coração, fígado, sistema nervoso.

 

O tempo médio de recuperação da infeção é estimado em cerca de 2 a 6 semanas, de acordo com a gravidade da doença, mas em alguns casos os sintomas podem prolongar-se muito além deste período, evoluindo para um quadro clínico atualmente reconhecido como síndrome pós-COVID-19. A probabilidade de desenvolver Síndrome pós-COVID-19 não parece estar relacionada com a gravidade da infeção ou com a necessidade de internamento.

 

Estima-se que mais de 50% dos indivíduos após a infeção possam manter algum tipo de queixa, sendo os sintomas mais comum cansaço, dor crónica, dores musculares e falta de ar. Nalgumas situações estes sintomas podem apresentar-se de forma intensa ao ponto de condicionar incapacidade e impactar profundamente na qualidade de vida e na reinserção social e profissional.

 

É importante nos casos em que não haja uma recuperação total que se procure ajuda médica ao fim de avaliar e estratificar a gravidade dos sintomas e orientar uma eventual investigação complementar para excluir danos ou sequelas orgânicas através, por exemplo, de análises ao sangue para verificar o estado de saúde dos rins ou do fígado, de imagem como a TAC ou funcionais como o exame do sopro ou da marcha. É fundamental não adiar a procura de resposta clínica e mesmo nos casos em que não existam sintomas após a infeção, é aconselhado procurar o seu médico para despiste de sequelas da infeção. A altura ideal para avaliar potenciais impactos e necessidades de reabilitação, qualquer que seja a apresentação clínica inicial, é entre as 6 a 8 semanas após a infeção aguda.

 

Existe a necessidade objetiva de instituir consultas de reavaliação após infeção aguda, até em modalidade de teleconsulta, que permitam através da utilização de inquéritos protocolizados a identificação e seleção de situações que mereçam seguimento a longo prazo ou investigação complementar, contando com a colaboração de múltiplas especialidades médicas. O médico deverá, caso a caso, determinar a necessidade de uma intervenção específica que inclua também um adequado suporte nutricional e um plano de treino de reabilitação respiratória. Deve ser também prioridade continuar a garantir a segurança dos doentes através da implementação e manutenção das habituais medidas de controlo de infeção para que o medo não atrase cuidados de saúde inadiáveis.

 

Por Michele De Santis

Pneumologista no Hospital CUF Coimbra

 

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