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Anorgasmia: nunca senti nada

«Aos 34 anos não sei o que é um orgasmo», revela uma mulher que sente a sua sexualidade manietada. Conheça a sua história neste Dia Mundial do Orgasmo.

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Parte da história da minha sexualidade consiste em não saber o que ela é.

 

Ao contrário das minhas amigas, considero que fui uma adolescente de relações longas e demasiado manietada para seguir a espontaneidade hormonal da minha idade. Tive dois namorados em toda a puberdade. E com nenhum deles julgo ter despertado para a sexualidade. Os amassos e os beijos tinham os seus limites, eram performáticos, sem fim em si mesmo.  No primeiro ano da faculdade tive o meu primeiro encontro sexual. Das boleias para a faculdade, dos estudos, dos apontamentos partilhados, um colega de turma passou a namorado, uma relação que durou oito anos. O sexo foi problemático. Quando passamos a viver juntos, mais complexo ainda. Melhorou. Acabámos. E depois dele, outros namorados. Aos 34 anos não sei o que é um orgasmo.

 

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Tenho desejo, excito-me, muitas das vezes lubrifico em dois minutos, mas alguma coisa em mim se desliga entre a excitação e o êxtase. Como sei eu que existe o que nunca senti?  Não sei. Alguma coisa no meu corpo me diz que há mais.  Assisti também ao arrebatamento dos meus namorados. Sou uma espectadora deslumbrada pela profusão entre as minhas pernas e cobiçosa desses espasmos.  A mim, a dispensa do período refractário, não me diz nada. Se nem da primeira vez vejo as estrelinhas, posso bem esperar que o meu namorado se ponha firme outra vez, que eu não vou ao bingo.

 

O orgasmo foi sempre o elefante cor-de-rosa no meio da sala sentando numa mesa de vidro. Para além disso, passei o início da minha vida adulta com picos de ansiedade, para não falar do vaginismo. Nada entrava cá dentro. Imaginar que a ginecologista apontaria o dedo indicador à minha vagina era meio caminho andado para saltar da cadeira e fazer uma peregrinação de Aljustrel a Bragança. Estou melhor agora. Como aluna aplicada que sempre fui, fiz de tudo para reverter a situação. Terapia individual, terapia de casal, terapia de grupo, li manuais, partilhei guias com os meus namorados, experimentei posições que me desafiaram a musculatura menos laxa. Com o meu último namorado adoptei a regra de não fazer sexo à noite, quando estou mais cansada, e na cama, que me tira a criatividade.  Experimentamos todos os cantos da casa, as superfícies mais lisas foram lustradas com gemidos, usamos velinhas, cremes, dildos. Mick Jagger de banda sonora. Despistei causas fisiológicas. O vaginismo passou, a ansiedade diminuiu. Orgasmos, nada.

 

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Tenho esta sensação de estar no meu corpo sem saber muito bem dele. Por vezes, é frustrante, melancólico e trágico.

 

Ao ver crescer as minhas sobrinhas e a ampliarem-se as angústias da minha irmã com as suas autonomias, percebi que a questão da minha sexualidade está ligada à minha educação.   A partir do momento em que me tornei namorável aos olhos da minha mãe, a minha mãe mudou. O meu pai, por arremesso, também. Se um se preocupava com a minha iminente sexualidade, o outro inquietava-se com a insegurança do mundo. Passei a viver num panóptico.

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