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Ana Tapia: «As mulheres querem ser tudo a todo o momento: bonitas, magras, boas mães, desejáveis, profissionais de excelência…»

A psicóloga social acaba de lançar o livro ‘STOP 50 Estratégias para Mulheres sem Tempo’, onde faz uma chamada de atenção para a necessidade de as mulheres pararem de tentar ser perfeitas e viverem mais a vida para além dos papéis que encarnam. E apresenta várias estratégias para que consigam encaixar todas as esferas da sua vida com qualidade.

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Mas é possível estar presente em todo o lado e ainda assim ter-se tempo?

Fazer o que é mais importante e ter tempo é possível. Estar presente em todo o lado e ter tempo, sem abdicar de coisas importantes, para a maioria das pessoas normais, é difícil. Contudo, todas as pessoas são diferentes. Algumas precisam mais de fazer mais coisas porque tem muitas motivações diferentes. Outras não. Há pessoas que pelas suas caraterísticas pessoais desenvolvem mais atividades: voluntariado, desporto, hobbies, eventos culturais e sociais, presença em diversos eventos profissionais e familiares. Outras precisam e apreciam uma vida mais pacata.


Os números continuam a mostrar que as mulheres, além de trabalharem, continuam a ter mais trabalho com a casa e os filhos. A mudança não terá de ser da própria sociedade?

A mudança da sociedade começa com mudanças individuais. Começa com cada pessoa que se junta a outra e a outra. Que diz: basta! Quero ter uma vida diferente. E para isso procura outras que querem fazer acontecer. É preciso liderança. Sim. Facilita que haja uma cidadania ativa. As mentalidades não se alteram por decreto. Hanna Arendt identificou como uma das origens da catástrofe que rodeou o holocausto a renúncia de uma pessoa ao ato elementar de pensar. De agir sem pensar, de cumprir ordens sem pensar. Vivemos tempos de enorme incerteza. Isso cria medo. Precisamos de pessoas que verdadeiramente se preocupem com o bem de cada um e do bem comum e que façam acontecer. Essa é a primeira grande mudança que precisamos para termos uma cultura de verdadeira solidariedade social. É na cooperação que residem as maiores possibilidades de concretização do bem individual. Não na competição. John Nash, matemático, demonstrou isso com a teoria dos jogos. E, para isso, é preciso que todos os envolvidos queiram alterar esta situação. E depois, agir em conformidade. O que não é fácil. Requer determinação e muita persistência.

 

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Quais os principais erros que as mulheres cometem que as levam a não ter tempo para nada?

Primeiro erro: matar-se a trabalhar, querer fazer tudo, assumir o trabalho dos outros.

 

Segundo erro: fazer tudo muito bem feito. Querer ser a Maria Perfeita, o que faz com que muitas vezes se adie o que se tem que fazer ou se duvide de quando não se atinge os níveis de perfeição que intui serem necessários para ser considerada uma pessoa de valor.

 

O terceiro erro é querer agradar, disponibilizando –se para fazer tudo o que lhe pedem, ou então é não se importar em agradar. Achar que não tem que ser simpática nem cordial com as outras pessoas desde que se faça bem o trabalho, seja muito qualificada ou ocupe um lugar de poder incontestado.

 

O quarto erro é desvalorizar-se. Acontece quando se acredita em tudo o que se ouve ou quando assume papéis que vão contra a sua própria natureza. Um dos exemplos disto é quando as mulheres se comportam como homens na sua forma de comunicar, estar e até vestir. Começam a dizer por vezes até uma linguagem obscena porque assim é uma forma de comunicarem melhor com os seus pares ou chefes homens porque é a forma de serem incluídas ou não serem consideradas “senhoras” ou “meninas”.

 

O quinto erro é ter medo de ofender e falar com rodeios, não ser clara e direta para não ferir suscetibilidades e proteger/arcar com o erro dos outros nomeadamente chefes diretos ou colegas com dano próprio.

 

O sexto erro é não adequar o seu estilo pessoal às circunstancias. É um erro com impactos tremendos nalguns ambientes profissionais pois através da forma como se fala e veste pode ganhar-se ou perder-se credibilidade. Em muitos ambientes profissionais a primeira apreciação que fazem das mulheres não é que são boas gestoras, diretoras, profissionais. Mas, sim, que são simpáticas….amáveis….ou que se vestem…bem.

 

O sétimo erro consiste em abdicar do seu poder de decidir com o que sabe, não deixar que os outros façam perder tempo, ter a paciência necessária e suficiente e aprender a identificar, lidar com pessoas difíceis e tóxicas, especialistas em arranjar problemas, a provocar mal-estar e muitas vezes a transferir as suas responsabilidades e tarefas para si.

 

As mulheres têm que trabalhar muito mais para mostrarem o que valem (o que é reconhecido pela maioria das pessoas de acordo com um inquérito que realizei em 2017). Os sete erros enunciados reforçam esta realidade de se trabalhar mais. É preciso parar e pensar se é preciso trabalhar tanto. O problema é que muitas vezes isso vai contra a natureza de muitas mulheres. E ou entram em conflito com elas próprias, com terceiros ou pura e simplesmente nunca passam da cepa torta ou ficam muito aquém do que poderiam considerando as suas competências e qualificações. Noutros casos, até conseguem ir além, mas abdicam da sua vida pessoal e do que as realiza mais como mulheres.

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