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Ana Tapia: «As mulheres querem ser tudo a todo o momento: bonitas, magras, boas mães, desejáveis, profissionais de excelência…»

A psicóloga social acaba de lançar o livro ‘STOP 50 Estratégias para Mulheres sem Tempo’, onde faz uma chamada de atenção para a necessidade de as mulheres pararem de tentar ser perfeitas e viverem mais a vida para além dos papéis que encarnam. E apresenta várias estratégias para que consigam encaixar todas as esferas da sua vida com qualidade.

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Porque sentiu necessidade de escrever este livro?

Primeiro porque constato muitas vezes que não tenho tempo para fazer tudo o que quero, gosto e estar tranquilamente com as pessoas que são mais importantes para mim. As “urgências” muitas vezes sobrepõe-se ao que é mais importante e nem sempre é fácil discernir o que eliminar, simplificar ou alterar.

 

Em segundo, porque na correria do dia-a-dia nem sempre é fácil encontrar soluções práticas que funcionem para os diversos problemas e nem sempre temos serenidade para pensar na melhor solução. Por isso, ter um guia para consulta, preparação e reflexão parece-me importante. Ao mesmo tempo todos os livros que conheço sobre este tema abordam apenas uma parte do problema: algumas técnicas (p.e. planeamento, estabelecer prioridades) áreas (utilizar a tecnologia), atitudes (adiar o que tem que se fazer). Mas, que eu conheça, nenhum aborda este problema com soluções práticas para adotar uma nova atitude que colmate um conjunto de erros das boas raparigas. Por fim, dando sentido a tudo isto é fundamental fazer-se escolhas, aprender a revigorar-se (dormir, ter passatempos) e criar novos hábitos. (Veja na galeria acima estratégias e técnicas para conseguir encaixar todas as esferas da vida).

 

Em terceiro lugar, porque a vida é muito mais do que fazer. É ser, estar, parar, desfrutar, amar. E parece que passamos a maior parte do tempo a fazer uma série de coisas, cada vez mais e depressa e no esquecemos do mais importantes: ser e tornarmo-nos pessoas felizes que tornam a sua vida mais agradável e a dos outros à sua volta. E para isso é preciso parar, refletir, agir e também descansar.

 

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As mulheres continuam sobrecarregadas na nossa sociedade. Quem são estas mulheres?

Eu diria que se trata da maioria das mulheres. Em particular, todas aquelas que têm uma vida profissional ativa, que se ocupam da maioria das tarefas familiares e têm filhos. Acrescentaria a estas todas aquelas que têm cargos profissionais exigentes, estão sozinhas e com a família a cargo e, em particular, as que se encontram entre os 30 e 50 anos, pois têm vários acontecimentos de vida que implicam diversos reajustes: constituição de família, filhos, progressão profissional, exercício de cargos de liderança, etc. Contudo, aconselho vivamente mulheres em início de carreira conhecerem os erros que muitas mulheres tendem a cometer e a praticar desde já as estratégias do Zé Despacha (pragmatismo, forma de comunicar e delegar, fazer networking e criar um muro contra as interrupções) e a tirar partido da tecnologia sem paixão para utilizarem e não serem “usadas” pelo frenesim imparável das comunicações, atualidade das informações e substituição dos relacionamentos pessoais por virtuais.

 

Porque são hoje em dia as mulheres assim, ou seja, desejosas de serem perfeitas em todas as dimensões da vida?

Em primeiro lugar porque não param para pensar. Não têm tempo. Esquecem-se de tudo o que fazem bem, todas as qualidades e capacidades e competências que demonstram e do seu valor. Negligenciam que nem sempre se consegue fazer o ótimo, mas só o possível. Assumem uma carga de quererem ser tudo a todo o momento: bonitas, elegantes, sofisticadas, magras, boas mães, companheiras, desejáveis, profissionais de excelência e secretamente “insubstituíveis”. Distraem-se de celebrar e agradecer tudo o que de bom têm e fazem. Contam só como elas próprias e estão constantemente a fazer comparações com as outras pessoas. Definem metas irrealistas para si e para o que fazem. Esquece-se de terem compaixão, aceitação e amor por elas próprias. A perfeição não é natural. É de ordem sobrenatural. Ser humana é ser imperfeita. Esta é a realidade.

 

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Que preço pagam a longo prazo por esta entrega a tudo e todos, menos a elas próprias?

Insatisfação, baixa autoconfiança, cansaço, desinteresse por fazer o que normalmente gostam. E até um certo cinismo perante a vida e os acontecimentos que surge quando se considera que o melhor é ter uma atitude de impassibilidade perante os outros, as situações e a vida. Traduz-se num mal-estar e apatia pessoal e social e muitas vezes numa atitude egoísta, narcísica e de utilitarismo que conduz a uma enorme solidão e sensação de vazio ou falta de sentido profundamente real.

 

Ou, então, entram num frenesim onde fazem muitas coisas para não olharem para a realidade das suas vidas. A situação mais frequente é o stress profissional prolongado – burnout – já para não falar na depressão enquanto estado anímico com tendência preponderante para crescer. Esta realidade complexa alimenta-se de uma constatação de impossibilidade de controlo dos acontecimentos que vai sendo reforçada pelo estilo de vida nas sociedades ocidentais desenvolvidas, e pelo esvaziar de relações pessoais e sociais significativas e perda da noção de sentido dos acontecimentos.

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