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Amira, a princesa portuguesa

É portuguesa, mas diz que a sua alma é marroquina. Desde muito jovem que se sente fascinada pela cultura árabe, e a vida acabaria por leva-la para esse mundo. Hoje, Maria João Pavão Serra divide-se entre Portugal e Marrocos, onde é conhecida por Amira.

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É amiga dos encantadores de serpentes da medina de Marraquexe, fala o dialeto local, dorme noites no deserto e não tem medo, adora o exotismo, as cores, os cheiros e os paladares de Marrocos, o seu país de eleição. Por lá, conhecem-na como Amira, que significa princesa em marroquino.

 

Maria João Pavão Serra é uma mulher invulgar. Vive uma vida quase nómada. Mas é assim mesmo que se sente e gosta de viver. Tem histórias que dariam para escrever um livro, como aquela em que foi adotada e viveu com uma comunidade cigana. Talvez um dia. Para já, fica a entrevista.

 

Tens uma paixão avassaladora por Marrocos. Como é que isto começou?

Eu tenho um fascínio pelo mundo árabe desde miúda. Não sei explicar porquê, porque não é nenhuma influência que me tenha sido dada pela família. Mas tenho memórias soltas como, quando tinha 15 anos, sintonizar a rádio marroquina e gravar cassetes com música marroquina; lembro-me de uma vez também ter comprado num alfarrabista um dicionário de português/árabe, para aprender a língua; tenho um quadro de um harém desenhado por mim aos 13 anos, em que a odalisca loura era eu. Portanto, há assim relações com o mundo árabe que não sei explicar.

 

Eu também sou licenciada em Historia, mas, antes disso, em 1980, fiz um curso semanal de arqueologia romana, que organizou uma viagem de Lisboa a Marrocos, para vermos a presença portuguesa em Marrocos e ver também a presença romana. E eu fiquei fascinada com Marrocos. Foi a minha primeira incursão em África, aos 21 anos. Voltei só 12 anos depois, já quando comecei a escrever sobre viagens, e aí foi a certeza de que era o meu país de eleição e que havia uma relação muito especial, inexplicável.

 

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Pergunto-te então se tens alma de portuguesa ou de marroquina?

Eu nasci em Portugal, mas minha alma é marroquina. Não sei explicar. Acredito em vidas passadas e acho que é uma coisa kármica. É uma coisa de alma.

 

Mas assumes toda a cultura marroquina?

Não. Eu consigo misturar-me perfeitamente no mundo deles, mas há muito coisa de que não abdico, como o papel de ser mulher. Marrocos não é como a Arábia Saudita, mas de qualquer maneira a mulher não está no mesmo patamar que o homem. E eu gosto de fazer o que quero, gosto de mandar na minha vida.

 

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E lá consegues ser essa mulher como és cá, ou não te deixam?

Tens que saber ser mulher e saber “levar a água ao teu pote”. Não é fácil em muitas situações impores-te como mulher num mundo de homens, portanto, tens de mostrar a tua fraqueza para impor a tua força. Tento agir com eles pela fraqueza, pela “sedução”, pela doçura, pelo sorriso, há várias formas de saber levar as coisas. Depois, como também falo árabe, isso é um ponto a favor em relação ao povo marroquino, porque eles ficam muito gratos de saber que alguém se interessa. Há lá muitos estrangeiros a viver que não se interessam.

 

E és bem aceite? Ainda por cima és loura.

Mas há imensas berberes louras e eu digo que sou berbere. Eu tenho uma alma nómada. Há muitos anos, com vinte e poucos anos, andei no meio dos ciganos durante seis anos. Fui adotada e fui cigana. É uma coisa estranha entre os nómadas, que acho que é o olhar. Eles reconhecem o olhar. E é muito engraçado, pois já tinha esse feedback dos ciganos e tenho agora dos marroquinos. Eles dizem que tenho olhar de berbere. Eles representam 60 por cento da população marroquina e têm o seu próprio dialeto, o tamazight.

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