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Amar, Beber e Comer com sabor a maresia

Sabíamos que era na Calheta e que os pratos seriam confecionados na rua por um talentoso chef afastado da sua cozinha equipada. Mas foi com surpresa que chegámos ao Farol da Ponta do Pargo, o ponto mais a oeste da Madeira, e vimos toda uma estrutura improvisada para receber (e bem) os comensais do último ABC do ano na Madeira.

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Imagine afastar os melhores chefs das suas cozinhas altamente equipadas e recheadas de ingredientes e desafiá-los a cozinhar numa simples panela de ferro ou em cima de um fogo improvisado. Onde? Num cenário improvável, em qualquer ponto do arquipélago da Madeira.

 

Este é o mote do ‘ABC – Amar, Beber e Comer’, um ciclo de eventos gastronómicos, sensoriais e culturais, que dá a conhecer o melhor que se faz na cozinha tradicional madeirense, preparado de forma inesperada.

 

A juntar a esta união inusitada ainda o fator supressa: os comensais só sabem do menu na hora, mas começam a receber pistas do local e da experiência 72h antes nas redes sociais da iniciativa.

 

E assim foi, uma vez mais, na sexta e última edição do evento na Madeira em 2021. Sim, porque o sucesso da iniciativa já a fez extravasar o arquipélago e chega a território continental na próxima edição. Mas disso já falaremos.

 

A ideia inicial é de Fábio Abreu, especialista em experiências culturais, que desafiou Nuno Nobre, consultor gastronómico, para se juntar ao projeto. Juntos, criaram o ABC – Amar, Beber e Comer. A essência do projeto é «oferecer às pessoas experiências em sítios inusitados, promovendo os concelhos para onde vamos utilizando os produtos daquela localidade, daquele concelho. Se formos para Câmara de Lobos usamos os peixes dos pescadores locais, se formos para a Ponta do Sol usamos os cuscuz de lá», explica Fábio Abreu.

 

Sopa de trigo

O ciclo dá a conhecer a gastronomia e produtos locais, sobretudo aqueles mais tradicionais que acabaram por perder algum protagonismo na atualidade e que fazem parte das receitas antigas da região. «São receitas que saíram do quotidiano, das casas das pessoas e principalmente dos restaurantes. É tentarmos recuperar toda essa identidade e cultura gastronómica junto da cadeia produtiva – do pescador, do agricultor -, e perceber também o que há e ninguém compra. No fundo, é ir buscar todos esses produtos e ajudá-los também a dignificá-los», explica Nuno Nobre.

 

Os princípios da sustentabilidade sustentam o ciclo gastronómico, e as receitas preparadas são exatamente reflexo disso. «Por exemplo, com o escabeche de peixe espada preto hoje servido não é só o lombo que vale para a cozinha. Ou seja, também há outras partes que não são descartadas. No fundo, é a sustentabilidade que já era feita na casa das nossas avós, no sentido de aproveitar tudo o que havia», acrescenta Nuno Nobre.

 

Miudezas e moelas? Quem diria que gostaria

Nesta última edição de 2021, o cozinheiro convidado a preparar um menu apelativo, com recurso a uma panela,  ingredientes simples e pouco mais, foi o madeirense Francisco Silva, responsável por três restaurantes no arquipélago. Para os 60 comensais desta edição, confecionou como entrada um (surpreendente) escabeche de miudezas de peixe espada (pescoços, fígados e barrigas do peixe) e moelas estufadas à madeirense, que são cozinhadas durante 24 h. Para acompanhar, um pão de massa mãe ajudou a que nada ficasse nos pratos.

 

Como pratos principais serviu massada de peixe, com congro, cação e bicuda, três peixes abundantes na costa madeirense e vindos diretamente do Mercado dos Lavradores, no centro do Funchal. E também a tradicional sopa de trigo, preparada com abóbora, batata, batata-doce, pepinela e outros legumes, e que leva também carnes gordas de porco salgadas.

 

Entradas.

E como é cozinhar sem o conforto de uma cozinha equipada? «Tenho água e fogo, por isso, tenho todas as condições», rematou Francisco Silva.

 

À hora da sobremesa muda-se de chef e esta fica a cargo de Rúben Magno, o chef pasteleiro residente do ABC. Para esta edição, escolheu preparar uma pavlova desconstruída com ganache de coco, «para terminar a refeição com algo leve e fresco».

 

A acompanhar todos os momentos, lá está o vinho. João Portugal Ramos é o parceiro que harmoniza a sua oferta com os menus preparados. A bordo também estão parceiros como a Vista Alegre, para firmar a portugalidade da iniciativa servindo os pratos em loiça típica.

 

Esta foi a sexta edição de uma experiência que começou este ano e que se vai repetir em 2022, também de maio a outubro, na Madeira. Mas o sucesso da iniciativa fez com que se prepare agora para seduzir o resto do país. O próximo ABC vai decorrer em território continental, mas o local e a data ainda são surpresa… ou não fosse este o ADN do ABC.

 

Veja imagens do evento na galeria no início do artigo.

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