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Alzheimer: medicamentos que permitam a estabilização ou recuo da doença parecem alcançáveis

No âmbito do 30º aniversário da Alzheimer Portugal, falámos com Celso Pontes, presidente da Comissão Científica, e Maria do Rosário Zincke dos Reis, membro da direção desta associação, para nos esclarecerem sobre o estado da doença em Portugal e no mundo. A sua prevalência, o impacto na família e na sociedade e novas formas de tratamento são algumas das questões abordadas.

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Como se caracteriza a doença de Alzheimer?

Celso Pontes: É uma doença degenerativa, em que existe uma severa e progressiva perda de células nervosas cerebrais, da qual resulta uma diminuição gradual das anteriores capacidades cognitivas e, com especial relevo, da memória recente.

 

Como se começam a manifestar os primeiros sinais?

Celso Pontes: A Doença de Alzheimer é a mais frequente das causas de demência. Nas fases iniciais, o defeito de memória é o sintoma mais relevante, com dificuldade na memorização dos acontecimentos recentes. A Alzheimer Association publicou os “dez sinais de alerta” para a doença, enunciando-os: perda de memória que afecta o trabalho; dificuldade em executar tarefas domésticas; alterações da linguagem; desorientação temporal e espacial; juízos alterados; alterações do pensamento abstracto; alterações da localização dos objectos; alterações do humor e do comportamento; alterações da personalidade e perda de iniciativa.

 

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Qual a sua prevalência em Portugal e como tem sido esta evolução?

Celso Pontes: A prevalência da Doença de Alzheimer em Portugal é estimada em cerca de 150.000 doentes, embora, para o total de demências, o valor seja certamente superior. Estimativas da Alzheimer Europe, já em 2012, apontavam para uma prevalência na ordem dos 182.000.

A prevalência veio a aumentar ao longo dos anos, em parte pelo facto de ser uma doença mais frequente com o avançar da idade – como a esperança de vida tem aumentado, o número de casos veio a aumentar em paralelo. É possível, no entanto, que haja uma tendência para a estabilização devido ao factor educação e actividade cognitiva, que têm um efeito de proteção em relação ao aparecimento dos sintomas.

 

Qual o impacto que tem numa família?

Celso Pontes: Tem impacto a vários níveis. Desde logo, destacamos o impacto psicológico (como agir, que fazer?), de disponibilidade de tempo para ajudar e cuidar do doente, económicos (a doença implica maiores gastos e, por vezes, perda de rendimentos) e social (porque os cuidadores têm menos tempo livre para si). O impacto da doença depende da capacidade de aceitação e de resiliência das famílias, mas sempre com um efeito negativo.

 

Portugal está na rota dos países que vão ter população muito envelhecida. Que impacto vai ter no número de doentes e na sociedade?

Celso Pontes: Como ficou dito, sendo uma doença que dura vários anos e cujos sintomas se manifestam sobretudo nas faixas etárias mais elevadas (depois dos 65 anos em geral), com o envelhecimento populacional, o número de casos sintomáticos aumenta.

 

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O que é necessário fazer já para minorar os efeitos destas estatísticas?

Celso Pontes: Independentemente de casos individuais, sabe-se que,  estatisticamente, a educação, a actividade física regular, a actividade cognitiva (entendida como vida intelectual ativa), a alimentação saudável e o combate ativo de doenças como a depressão, a hipertensão arterial, a diabetes e outras doenças crónicas, ajudam a prevenir/ retardar/ evitar a Doença de Alzheimer. Assim, a promoção destes comportamentos é muito importante.

 

Em que estado está a investigação clínica para desenvolvimento de novos medicamentos?

Celso Pontes: Desde há vários anos que existe investigação científica, em todo o mundo e também em Portugal, no sentido de encontrar medicamentos que suspendam ou revertam a evolução da doença. Neste momento, em vários centros clínicos do país, decorrem ensaios clínicos e três encontram-se em fase de recrutamento de doentes voluntários. Além disso, existem também há vários anos tratamentos que permitem melhorar sintomaticamente os doentes, embora não interfiram na progressão da doença.

 

A cura é possível a breve prazo ou a investigação ainda anda muito longe desta meta?

Celso Pontes: A cura, neste momento, não é um objectivo próximo. Em contrapartida, medicamentos que permitam a estabilização ou recuo da doença parecem alcançáveis.

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