Adolescere

“O pai teme os seus filhos. O filho acha-se igual ao seu pai e não tem nem respeito nem consideração pelos seus pais. O que ele quer é ser livre. O professor tem medo dos seus alunos. Os alunos cobrem o professor de insultos. Os mais novos querem tomar já o lugar dos mais velhos. Os mais velhos, para não parecerem antiquados ou despóticos, consentem nesta demissão. E, para coroar tudo, em nome da liberdade e da igualdade: a libertação dos sexos!”

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Dir-lhe-ei já o autor destas palavras. Sei que, para muitos, será um retrato fidedigno dos nossos conturbados tempos. Adianto apenas que, se se revê neste texto, com grande probabilidade já não é adolescente ou jovem.

 

A associação entre adolescência, tensão e conflito vem de longe. Tal fica bem patente no primeiro estudo mais científico sobre a adolescência, autoria de Stanley Hall, investigador do início do seculo XX. A Saúde Mental, enquanto disciplina, também contribuiu para esta visão, apoiada pelos estudos de casos clínicos da Psicanálise em meados de século XX. Só quase no final do seculo, é que estudos epidemiológicos, transversais a toda a população, mostraram uma perspetiva muito mais positiva desta fase.

 

A verdade é que uma série de transformações e tarefas, que são simultâneas e interactuantes, e pelas quais o adolescente tem necessariamente de passar, exigem um esforço de adaptação dele próprio, bem como daqueles que o rodeiam. Desde logo a uma nova imagem corporal; à transformação na relação com os pais e com os pares e também a questões relacionadas com a sexualidade. Todos são aspetos fundamentais no processo de autonomização do adolescente, o que inevitavelmente despoleta ambivalência no próprio, ansiedades que deve enfrentar, turbulência com aqueles que têm de traçar limites, e riscos, que podendo ser potencialmente comprometedores do desenvolvimento, podem também ser fomentadores do crescimento.

 

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Na fase adolescencial, no campo da sexualidade, importa dizer que é muito rara a existência de situações de disfunções sexuais claramente definidas. Há, contudo, experiências, comportamentos que poderão afetar ou influenciar negativamente a vida sexual, seja no presente como no futuro, enquanto adultos.

 

Existem acontecimentos, ou fundamentalmente a leitura que deles é feita, que favorecem a interiorização de mitos e crenças ligados à sexualidade, bem como padrões de desempenho causadores de ansiedade, que poderão ser no futuro causa de disfunção sexual. Nesse aspeto, também o ideal de beleza e sucesso veiculados pela sociedade em muito dificulta a aceitação do corpo.

 

É importante relembrar que as mudanças no que concerne à sexualidade não estão de forma alguma isoladas do contexto em que acontecem, da cultura em que se inserem e das restantes relações que os jovens têm, nomeadamente com os pares e com os pais. Pelo contrário, a prática clinica mostra que estão umbilicalmente ligadas. Poderia dar muitos exemplos clínicos de como a leitura que é dada aos jovens, explicita ou implicitamente, está na origem de vivências pouco satisfatórias ou disfuncionais da sexualidade. Nesse aspeto, são muito preocupantes determinadas comunicações intrafamiliares que tendem a culpabilizar comportamentos, sentimentos ou vivências. Essencialmente quando ocorrem em relações “perfeitas”, estão menos sujeitas à relativização por parte dos mais jovens, podendo estar na génese da patologia sexual.

 

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Às mulheres, principalmente, é traçado um limite mais rígido. A relação com o sexo é mais facilitada para os rapazes. Permitimos que erotizem, que testem e é dada maior tolerância e permissividade. Às meninas, pelo contrario, sugerimos contenção, estreitamos os limites, acenamos com o(s) perigo(s) da saúde e da avaliação social, coartando a sua capacidade de fantasiar. Isso estará, em minha opinião, estreitamente relacionado com as queixas que trazem para o consultório sobre a incapacidade em erotizar da forma como gostariam, de sentir prazer ou mesmo atingir o orgasmo. Os homens são sobretudo vítimas do que assumiram ser uma performance competente. Por vezes, uma “falha” (“normal”) é sentida de tal forma que os arrasta para um ciclo vicioso e para uma disfunção eréctil. E, claro, têm de desejar sempre.

 

Devo dizer que na prática clinica com os mais novos não é tão notória a tal “libertação dos sexos”, como o desejo fundamental – e esse sim imagino que intemporal – do adolescente em se sentir amado.

 

E, ah! A citação que inicia este texto tem quase 2500 anos. O autor é Platão.

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