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A solidão e o vínculo emocional cada vez mais distante

Será que o uso excessivo das redes sociais tem um poder pernicioso de levar as pessoas a uma solidão digital compartilhada?

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De facto, a solidão, este espectro assombroso, não brota unicamente das nossas escolhas pessoais; ela é também o reflexo do contexto social e económico que nos envolve.

 

À semelhança de um jardineiro diligente que escolhe com cuidado as sementes para o seu jardim, somos chamados a ser seletivos nas nossas relações, desafiados a investir em laços autênticos em detrimento de conexões digitais superficiais. Infelizmente, vemos uma geração que foi levada a acreditar que todos os caminhos para a felicidade são através de compras ou relações líquidas, referiu Zygmunt Bauman (1925-2017).

 

No quotidiano em que nos perdemos, nadamos cada vez mais nas águas efémeras da modernidade líquida, conceito cunhado por Bauman para descrever este nosso mundo globalizado e ligado digitalmente em rede. Tal qual um líquido que toma a forma do recipiente, esta modernidade líquida invade e desestrutura as diversas esferas da nossa vida social, desde o amor até à cultura e ao trabalho, desafiando as formas como as conhecíamos até então.

 

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Não admira, pois, que nos sintamos cada vez mais desalentados, pertencendo a uma geração iludida pela crença de que a felicidade se alcança através do consumo desmedido ou de relações efémeras. Nas intricadas teias das redes sociais, assistimos a um paradoxo: a proximidade virtual traduz-se numa solidão palpável, tornando-nos em ilhas de isolamento num oceano de interações fugazes.

 

Maria Pedroso de Lima, professora e Investigadora Integrada Departamento de Psicologia Social e das Organizações (ECSH), autora da obra “Nós e os outros: o poder dos laços sociais”, alerta-nos para os riscos sérios que a solidão acarreta para a nossa saúde, equiparando-a a hábitos nocivos como o tabagismo. A solidão, afirma, aumenta em 45% a probabilidade de uma morte prematura. Um dado alarmante que encontra eco em estudos apresentados em congressos de renome, revelando que a solidão afeta não só a nossa psique, mas deixa marcas indeléveis na nossa saúde física.

 

John e Stephanie Cacioppo, dupla de neurocientistas de renome, sublinham que a solidão aflige um terço da população nos países desenvolvidos, independentemente do seu estatuto socioeconómico. Tim Kasser, abordando a temática por outro prisma, reflete sobre como a adesão aos valores do capitalismo empresarial americano pode agravar o sentimento de solidão, levando-nos a uma busca incessante por sucesso material e relações competitivas.

 

Antídotos contra a solidão

Porém, há luz ao fundo do túnel. O amor-próprio e relações interpessoais saudáveis surgem como antídotos eficazes contra a solidão. Assim como um chá quente conforta um corpo fatigado, essas conexões genuínas têm o poder de sarar uma alma solitária.

 

A chave está em procurar não qualquer conexão, mas a conexão certa. Laços fundados no amor-próprio, na autoestima e no respeito mútuo são os que verdadeiramente importam para a nossa saúde e felicidade.

 

O amor-próprio é o alicerce para construir relações significativas. Quando nos valorizamos, definimos limites, atendemos às nossas necessidades e exigimos respeito. A solidão pode ser fatal, mas o amor-próprio e um amor saudável podem ser a nossa salvação. Amar-nos permite-nos amar os outros de forma mais profunda e verdadeira. O amor é um ato de estar presente, e é assim que devemos vivê-lo.

Resumindo, ao cultivarmos o amor-próprio e escolhermos relações verdadeiras, podemos fazer frente à epidemia de solidão. Recordemo-nos que cada um de nós é merecedor de amor e respeito, e cabe-nos a nós exigir isso dos outros. Escolher o amor-próprio é escolher a vida, e nessa escolha encontramos a chave para combater a solidão e promover a saúde e a felicidade.

 

Sabemos que inevitavelmente estamos rodeados do mundo digital, não é necessário diabolizar o uso do mesmo, mas compreender que o excesso pode levar a uma vida irreal e, por sua vez, a solidão surge de forma sutil, impactando a forma como interagimos com os outros passando a viver a vida em rede e esquecendo o contato e afetos pessoais.

 

Creio que concordará comigo que é essencial reavaliar e transformar a nossa relação com a tecnologia, utilizando-a como um meio para fortalecer verdadeiras conexões humanas. Nesse sentido, gostaria de apresentar um plano estratégico e reflexivo, destinado a guiar-nos por um caminho de consciência e conexão autêntica, combatendo a solidão e promovendo a interação genuína.

 

  1. Consciencialização Digital: Avalie o impacto da tecnologia na sua vida, refletindo sobre o tempo gasto online, as atividades realizadas e as emoções sentidas antes, durante e depois da interação digital.
  2. Demarcação de Fronteiras Tecnológicas: Estabeleça limites saudáveis para o uso da tecnologia, como reduzir o tempo nas redes sociais, definir momentos específicos para estar online e realizar períodos de ‘detox’ digital.
  3. Procura de Interações com Significado: Busque conexões mais profundas e significativas nas plataformas digitais, e use a tecnologia para facilitar encontros presenciais e fortalecer relações autênticas.
  4. Cultivo de Competências Sociais no Mundo Real: Desenvolva habilidades sociais fora do ambiente digital, participando de atividades comunitárias, voluntariado ou passando tempo de qualidade com amigos e família.
  5. Atenção à Saúde Mental e Física: Cuide do seu bem-estar mental e físico, praticando meditação, exercício físico regular, mantendo uma alimentação equilibrada e garantindo um sono adequado para combater os efeitos negativos da solidão.

 

Concluindo este pequeno ensaio, num mundo cada vez mais digital, é crucial refletir sobre a forma como as tecnologias impactam as nossas relações sociais, muitas vezes intensificando a sensação de solidão e abandono. Neste texto proponho uma visão mais consciente do tempo e uso da interação digital, por forma a que, possa sobrar algum tempo para o cultivo de conexões presenciais genuínas assim como alertar que a melhor forma de combater a solidão é buscar interações significativas.

 

Desenvolver habilidades sociais fora do ambiente digital e manter o bem-estar físico e mental é primordial e saudável. Somos humanos e seres de relação, por isso, apelo à redescoberta e valorização das relações humanas autênticas, como forma de combater a solidão e promover um senso de comunidade e pertencimento.

 

No fim de contas a linguagem dos afetos está onde sempre esteve: no ombro amigo, no olhar diretamente nos olhos do outro, no aperto de mão pessoal, na gargalhada audível e no contato pessoal com o próximo. Na realidade, queiramos ou não, é isso que nos torna verdadeiramente humanos.

 

Por Alberto Lopes

Neuropsicólogo/hipnoterapeuta

 

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