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A Oportunidade! Ou como ver o copo meio cheio

Anda sempre a queixar-se de que não tem tempo para nada? Pode agora, neste recolhimento preventivo, fazer tudo aquilo que sempre desejou: ficar no sofá a despachar séries, brincar horas a fio com o seu filho, não ir trabalhar, ter conversas deliciosas em casa, fazer um bolo…. Ou, afinal, a sua rotina não era assim tão má?

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A situação é deveras preocupante, não só ao nível da saúde, mas também pelo seu impacto económico. É inegável e vai trazer inúmeras e demoradas consequências. Por isso, logo que possível,  vamos todos trabalhar para atenuar isso. Entretanto, estamos em casa…

 

O mundo está a obrigar-nos a ter tempo. Caricato, não é? Está a fazer-nos parar e enfrentarmo-nos a nós mesmos. Neste período de paragem obrigatória em casa, a sua mente não vai estar ocupada com a próxima reunião ou projeto, nem com a correria para as atividades extra-curriculares dos filhos, nem com as ideias para o jantar de logo à noite. Está em casa e, veja só, vai estar semanas a fio… consigo mesmo e com os seus. Mas não era isto que sempre desejava? … Pensando bem, talvez goste mais da sua vida rotineira do que imaginava.

 

Se bem que todos desejaríamos que esta pandemia não estivesse a acontecer, ela está. E se a sua família não está a sofrer consequências graves de saúde decorrentes da Covid-19 – o que será a esmagadora maioria da população – veja esta paragem abrupta da vida como uma oportunidade. Pare, escute e olhe! Para a sua vida, para a sociedade e para o planeta.

 

Por vezes, ou muitas vezes mesmo, deixamos a vida andar. Nesta correria diária deixamos situações assim-assim continuarem indefinidamente. Mas para tomarmos decisões precisamos de tempo para pensar nelas. E viver sempre em modo de resposta ao estímulo não dá espaço a mais nada a não ser cumprir as tarefas diárias, roboticamente.

 

Agora pode pensar na sua vida. É uma boa oportunidade – única diria – de parar para pensar e avaliar o caminho que quer seguir daqui para a frente.  Não tenho dúvidas de que muitas decisões se vão tomar no final deste período de recolhimento. Pessoais, profissionais, relacionais.

 

Nesta convivência forçada, muitos casais vão perceber que já não fazem nada juntos. O pico dos divórcios dá-se mesmo após os momentos de maior convívio, dizem os entendidos. Este não será excepção, até porque é acrescido de stress e ansiedade que a situação acarreta. Muitos também deverão perceber que não estão felizes no trabalho e talvez tomem a decisão de dar novo rumo à vida. Ou, por outro lado, percebem que ele não é assim tão mau. Outros, porventura, poderão descobrir que têm em casa um talento escondido naquele jovem adolescente ou que afinal até sentem saudades daquele familiar que ficou de quarentena. É um mundo de oportunidades.

 

Para além da oportunidade de crescimento pessoal e relacional, esta paragem obrigatória faz vir ao de cima também alguns aspetos positivos da sociedade – deliberadamente não vou falar da parte negativa de açambarcamento e irresponsabilidade de alguns – este é um editorial sobre o copo meio cheio. Vemos o poder da cultura e da arte. Em Itália, as pessoas de quarentena cantam juntas à janela. Descobrimos o prazer das pequenas coisas, como ir à praia apanhar sol, e valorizamos mais o convívio social, agora que estamos privados destes. Por cá, batem-se palmas em uníssono pelas varandas do país fora. Vizinhos predispõem-se a ajudar os mais velhos a não se exporem aos riscos, fazendo-lhes as compras básicas. Assim, de forma generosa, sem querer nada em troca, o melhor das pessoas vem ao de cima. Quem não se emociona com isto?

 

Somos animais gregários e estarmos juntos é a nossa natureza. Os jovens, tão enebriados que costumam andar com o que salta dos seus ecrãns, vão apanhar um tal fartote que vão ter saudades e perceber o quão importante é estar e conversar presencialmente com amigos, assim a olhar nos olhos e a darem abraços. Diria que vão sair desta a valorizar mais as relações pessoais.

 

Também é tempo de não só falar mas finalmente agir em prol de um planeta melhor. Imagens de satélite divulgadas pela NASA e pela Agência Especial Europeia mostram que, devido à paragem abrupta da produção na China e em Itália, a poluição diminuiu drasticamente nos céus desses países. Poluição essa que advém sobretudo das fábricas e da circulação automóvel. De facto, este ritmo alucinante de eterno crescimento do nosso modo de vida num planeta finito está a mostrar o seus impactos com as alterações climáticas, redução drástica de espécies, excesso de poluição, alterações nos diversos ecossistemas terrestres e aquáticos, etc.. com consequências para todos nós.  Estamos a exercer uma pressão sem precedentes sobre os recuros naturais que tem de ser reduzida… sob pena de o planeta fazer a sua própria higienização.

 

Que este tempo de recolhimento sirva para todos pensarmos que não vale tudo e que as nossas ações têm consequências, a nível pessoal, social e planetário. Por isso, da mesma forma que só a ‘trabalharmos’ todos juntos ficando em casa conseguiremos superar o problema da Covid-19, também deveremos estar em sintonia para aliviarmos a pressão que exercemos sobre esta nossa bela casa azul que é o planeta Terra, este fantástico rectângulo que é Portugal e esta maravilhosa bolha, que é a vida de cada um de nós. Fiquem em casa, fiquem bem.

 

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