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A obesidade e a pandemia da COVID-19

Na altura em que se assinala o Dia Nacional de Luta contra a Obesidade, a 23 de maio, Paula Freitas, médica e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, traça um retrato das implicações da Covid-19 nas pessoas com obesidade e dá algumas orientações a ter em conta.

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A COVID-19, doença infeciosa causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, foi declarada pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a 12 março de 2020. A obesidade também é considerada a pandemia do século XXI por esta entidade. Como se refere no documento de declaração de posição da Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, até parece contraintuitivo que a COVID-19, uma doença comunicável, tenha tanta contiguidade com uma doença não comunicável, como a obesidade.

 

De facto, as pessoas com obesidade e com COVID-19 têm um elevado risco de hospitalização, doença mais grave e mortalidade, provavelmente devido à inflamação crónica de baixo grau e alteração da resposta imune à infeção, mas também devido ao aumento das comorbilidades cardiometabólicas associadas à obesidade.

 

Em primeiro lugar, queria realçar que as pessoas com obesidade, tal como as pessoas com diabetes, entre outras doenças crónicas, não têm maior risco de contrair a doença COVID-19. No entanto, em caso de infeção, a gravidade da doença aumenta de acordo com o IMC (índice de massa corporal), tendo maior risco aqueles com IMC igual ou superior a 35 ou 40 Kg/m2.

 

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Alguns estudos mostraram que a necessidade de ventilação mecânica invasiva estava associada com a gravidade da obesidade e era independente da idade, do género, da presença de diabetes ou de hipertensão arterial. Ou seja, a obesidade per se contribuirá para a gravidade da doença COVID-19 e maior necessidade de internamento nos Cuidados Intensivos.

 

Dos fatores mais associados ao risco de hospitalização por COVID-19, além da idade e da obesidade (IMC> 40 kg/m2), foram identificados a insuficiência cardíaca e a doença renal crónica. Quer a insuficiência cardíaca quer a doença renal são muito prevalentes nas pessoas com obesidade e naquelas com obesidade e diabetes. Adicionalmente, os doentes com formas mais graves de COVID-19 são aqueles com doenças prévias como a hipertensão arterial, diabetes mellitus, doença respiratória crónica, doença cardiovascular e cancros. E, de facto, todas estas doenças também são mais prevalentes em pessoas com obesidade.

 

Ou seja, a obesidade está associada ou é a promotora de uma série de riscos metabólicos (hipertensão arterial, pré-diabetes, dislipidemia) e comorbilidades (doença renal, diabetes mellitus e doença cardiovascular). Adicionalmente, as pessoas com obesidade e sobretudo aquelas com obesidade abdominal, podem ter disfunção respiratória com aumento da resistência das vias aéreas, diminuição da força muscular, alteração dos mecanismos respiratórios e diminuição de ventilação das bases pulmonares e do volume pulmonar, o que pode resultar numa menor saturação de oxigénio no sangue.

 

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Os doentes com obesidade podem também apresentar redução da elastância da parede abdominal, da compliance do sistema respiratório total ou do volume de reserva expiratória. Existe ainda uma associação entre obesidade e diminuição da função imune e maior possibilidade de agravamento de eventos trombóticos, o que se relaciona com a gravidade da COVID-19.

 

Em termos de abordagem por parte da pessoa com obesidade, é de sublinhar que muitas pessoas com obesidade têm diabetes tipo 2 e que estes doentes poderão precisar de fazer uma monitorização mais frequente da glicemia e de fazer ajustes na terapêutica, nomeadamente nas unidades de insulina, para manter a normoglicemia de modo a se adaptarem aos novos requisitos, dada a diminuição da atividade física, aumento do sedentarismo ou maior ingestão energética associada ao período de confinamento.

 

Adicionalmente, a quarentena e o confinamento poderão ter potenciais consequências na saúde e bem-estar das pessoas a curto e a longo prazo, nomeadamente naquelas com obesidade, mesmo que ainda sem outras comorbilidades associadas conhecidas ou diagnosticadas.

 

Toda esta inesperada “nova realidade” poderá ter consequências em determinantes psicossociais e de saúde, já que os acessos aos cuidados de saúde global se modificaram. Para responder às necessidades urgentes de cuidados de saúde COVID-19, grande parte da prestação de serviços de saúde foi reestruturada, e os procedimentos médicos e cirúrgicos não essenciais eletivos foram adiados.

 

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