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«A incontinência urinária continua a ser uma epidemia escondida»

Em Portugal, as patologias cardiovasculares continuam a ser o principal problema de saúde das mulheres. Mas há outros, muito específicos da condição feminina, sobre os quais nunca é demais refletir. Como vai  a saúde das portuguesas? Questionámos a ginecologista/obstetra, Bercina Candoso, responsável pelo Centro de Uroginecologia e Pavimento Pélvico, do Centro Materno Infantil do Norte - Centro Hospitalar do Porto.

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Como os diferentes ciclos e experiências da mulher (gravidez, menopausa…) podem afetar a saúde feminina?

Na maior parte das vezes, a gravidez decorre sem qualquer problema maior, apenas com os desconfortos próprios dos diferentes trimestres. Mas em alguns casos a gravidez, por si só, pode desencadear o aparecimento de doenças como a diabetes, hipertensão, alterações renais, patologia tireoideia, hepática, que ocorrem durante o 2º, e mais frequentemente o 3º trimestre, e que podem tornar-se crónicas, ou seja, persistirem após o término da gravidez.

 

No entanto, a gravidez é também protetora, nomeadamente do cancro do ovário e da mama, ou seja, acredita-se que a prevalência destas duas patologias é menor nas mulheres que estiveram grávidas e que amamentaram os seus filhos.

 

Também na gravidez, por alterações hormonais e por aumento de pressão a nível dos mecanismos de suporte do pavimento pélvico, pode aparecer um quadro de incontinência urinária de esforço, que de transitório pode passar a permanente.

 

A menopausa, com a diminuição drástica de estrogénios na mulher, pode afetar ou despoletar patologias diversas: depressão, alterações cognitivas, diminuição da líbido, incontinência urinária e patologia do pavimento pélvico, alteração do metabolismo dos lipídeos e dos hidratos de carbono, hipertensão, diabetes mellitus, osteoporose. Por isso se torna tão necessário um acompanhamento médico nesta fase da vida da mulher que, sendo natural, pode trazer muitas alterações a necessitarem de tratamentos que apresentam bons resultados.

 

Veja a galeria: Mitos desmistificados sobre o cancro

 

A incontinência urinária continua a ser tabu? É possível curar o problema?

A incontinência urinária continua a ser considerada uma “epidemia escondida”. E se vemos que nos estratos mais jovens e nas mulheres trabalhadoras existe um maior à vontade para referirem o seu problema ao seu médico, ainda existem muitas – a grande parte – que esconde ou que vive sozinha o problema porque o considera inevitável, tendo como exemplo as mulheres da família de gerações anteriores que também se queixavam do mesmo problema.

 

Aceitam como natural e dependente do envelhecimento, o que não é, desconhecendo que existem tratamentos simples com taxas de sucesso acima dos 90%, cirurgias minimamente invasivas, não incapacitantes e com rápido retorno à sua vida diária normal, quando se trata de uma Incontinência Urinária de Esforço. Existe também medicação e outros tratamentos mais inovadores para a Incontinência Urinária de Urgência.

 

O facto de a incontinência urinária prevalecer nas mulheres relaciona-se com a gravidez e respetivo parto por via vaginal? É possível contornar esta situação?

Embora a Incontinência Urinária de Esforço – aquela em que a mulher perde urina com a tosse, espirro, riso, a pegar em pesos, ou a dar uma corrida – possa ser mais prevalente nas mulheres que tiveram partos vaginais, a própria gravidez, por alterações hormonais e pela ação do útero gravídico sobre os mecanismos de suporte da bexiga, pode ser responsável pelo aparecimento desse tipo de patologia.

 

No entanto, convém saber que a cesariana está associada a outro tipo de incontinência urinária – a de urgência – a mulher sente uma vontade súbita e inadiável de urinar que não consegue inibir e perde pequenas gotas ou de forma catastrófica. Também está relacionada com o aparecimento de outros sintomas relacionados com alterações da enervação da bexiga, que sofreu danos durante a cirurgia, ao acordar com vontade de urinar várias vezes por noite. Isto tem efeitos muito prejudiciais na qualidade do sono destas mulheres e no descanso necessário para um dia de trabalho.

 

Cerca de 40% das mulheres que tiveram filhos vão apresentar um quadro de incontinência urinária ao longo da vida.

 

Não existe qualquer razão para contrariar o que é natural indicando uma cirurgia invasiva para tentarmos evitar uma hipótese, a incontinência urinária, que pode ser corrigida com uma cirurgia minimamente invasiva. Durante a gravidez, a mulher pode e deve ser ensinada e incentivada a fazer exercícios de fortalecimento do pavimento pélvico. Estes exercícios são conhecidos como os exercícios de Kegel.

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