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A falência da massificação

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Quando emigrei para a Holanda, ainda a trabalhar como jornalista, pensei durante alguns meses no rumo a dar à minha carreira. Sendo que a única certeza que tinha era a de querer criar, de alguma forma, uma ponte entre Portugal e a Holanda, a resposta surgiu naturalmente ao observar a reação dos amigos do meu namorado holandês aos seus recém-adquiridos sapatos portugueses.

 

O calçado é a indústria mais relevante da economia nacional, com elevados números na taxa de exportação. Assim, com alguns contactos na mão, começamos literalmente a bater à porta de pequenas fábricas familiares em busca de informação. Num acesso de confiança e loucura, em maio de 2015 criamos a marca ‘From Portugal‘ e compramos 200 pares de sapatos. Rapidamente o negócio saltou do Facebook e da nossa arrecadação para uma pequena loja numa zona residencial de Roterdão e, poucos meses depois, a resposta positiva dos clientes em mercados e outros eventos, e uma boa rede de contactos, levaram-nos a uma concept store no coração da cidade.

 

Neste momento celebramos a abertura da nossa primeira loja, estamos presentes em três espaços comerciais e somos considerados pequenos empreendedores com um percurso de sucesso. Digo-o sem vaidade mas também sem falsa modéstia, porque trabalho todos os dias para fazer mais e melhor e, como escreveu o antropólogo Jorge Dias na sua obra de 1950 sobre a personalidade base dos portugueses, «o português é um misto de sonhador e de homem de ação, ou melhor, é um sonhador ativo, a que não falta certo fundo prático e realista. Não sabe viver sem sonho e sem glória.»

 

Mas esta crónica não pretende contar a história da minha marca, mas antes fazer uma reflexão sobre o mercado do calçado nos Países Baixos. Numa altura em que nos encontramos a preparar a primeira coleção completa com marca própria, os telejornais abrem com a notícia da falência de várias cadeias de sapatarias holandesas. Não podendo ignorar este facto, debrucei-me nos últimos dias sobre as suas causas e consequências.

 

Os nossos clientes elogiam frequentemente a diferença e autenticidade da nossa marca. Falamos-lhes das fábricas com que trabalhamos e explicamos como temos aprendido e crescido com os nossos parceiros. Sem arrogância, partilhamos com eles o conhecimento que nos tem sido transmitido, trocamos ideias sobre os modelos a integrar na nossa coleção, pedimos opiniões e falamos com paixão da história da nossa marca, que se reflete no percurso da nossa vida em comum.

 

Os clientes revêem em nós os valores da nossa marca e criam um laço com o produto através da sua história e das caras que o representam. Mais do que nunca, os consumidores não procuram comprar apenas produtos mas antes estórias, emoções, honestidade, sustentabilidade. E, na minha perspetiva de empreendedora e consumidora, o único caminho para o comércio é esta procura de estreitamento de laços com os seus clientes e fazer do momento da compra uma experiência única. Penso que a era das grandes cadeias de retalho como as conhecemos está perto do fim e desejo que os nossos clientes que, hoje, ainda fazem parte de um nicho, cresçam em número e se tornem uma maioria consciente.

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