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A dependência do social

Nós, aqueles que cresceram com TV a preto e branco, dois canais e um ZX Spectrum que demorava tanto a ligar que perdíamos a vontade de jogar, fomos uns privilegiados. Fomos obrigados a treinar várias capacidades que nos são muito úteis nos dias de hoje enquanto adultos. A capacidade de esperar, a capacidade de gerir o tédio e a criatividade. Sabíamos estar sem fazer literalmente nada!

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Assistimos a uma preocupante tendência que torna pequenos e graúdos incapazes de estar sem fazer nada, a não ser pensar! Já pararam para observar as pessoas à vossa volta? O que está a fazer quem está na paragem do autocarro, ou quem está na sala de espera do consultório médico ou quem espera por uma refeição no restaurante? A resposta é simples e única. Independentemente de estarem sozinhas ou acompanhadas essas pessoas estarão, quase de certeza, a fazer scroll nas redes sociais, agarradas a um qualquer pequeno ecrã (não é por acaso que pessoas de todas as idades gastam cerca de 25 horas por semana online).

 

Alguns estudos mostram que a maioria das pessoas prefere estar a fazer alguma coisa, mesmo que seja uma negativa (diz até que preferem administrar choques elétricos a elas próprias – demasiado radical!), do que estar sem fazer nada.

 

Quando observo os meus filhos, sinto que nós, aqueles que cresceram com TV a preto e branco, dois canais, um ZX Spectrum que demorava tanto a ligar que perdíamos a vontade de jogar e, na loucura, um “Brick Game”, fomos uns privilegiados. Fomos obrigados a treinar várias capacidades que nos são muito úteis nos dias de hoje enquanto adultos. A capacidade de esperar, a capacidade de gerir o tédio e a criatividade. Sabíamos estar sem fazer literalmente nada!

 

É irrefutável que as redes sociais assumem hoje um papel central na relação entre as pessoas, mas também na relação entre marcas e consumidores. Esta nova forma de relacionamento trouxe uma série de oportunidades para as marcas:

  • a distância passou a ser mais curta,
  • o mercado alvo passou de local a global,
  • o consumidor está mais bem identificado,
  • os custos de transação são mais reduzidos.

 

Mas, as mudanças introduzidas não foram só positivas:

  • o ritmo dos dias acelerou obrigando as marcas a estar 24/24h disponíveis,
  • passaram a estar mais expostas à crítica,
  • têm de estar em constante reinvenção para dar resposta às novas necessidades dos consumidores,
  • passaram a ter um papel social muito mais relevante pelo alcance que conseguem.

 

Já os consumidores passaram a viver no limbo entre a vida real e aquela que as marcas querem projetar, expostos a uma cada vez maior pressão social (e com ela uma maior ansiedade) para captar a atenção das suas redes de contacto, vivendo de acordo com as expetativas dos outros numa “aparente” felicidade contínua. Este facto pode acarretar consequências graves sobretudo para os mais jovens (cada vez mais cedo).

 

Quem gere marcas trabalha para aumentar as interações (partilhas, likes, comentários) nas suas páginas sociais, criando empatia com os seus consumidores, com o objetivo último de ampliar a notoriedade da sua marca e as vendas dos seus produtos e serviços.

 

Como podem as marcas ajudar a aliviar os efeitos que a dependência do social tem no consumidor?

  • Não contribuir para um padrão de género, de beleza, de corpo ou etnia na comunicação;
  • Respeitar os influenciadores sociais tal como respeitam os seus consumidores – nem todos os dias o influenciador que dá a cara pela marca está com o mesmo mood pelo que se deve respeitar o seu tempo e sobretudo permitir-lhe uma comunicação transparente e verdadeira;
  • Redefinir o peso que atribui aos canais sociais
  • Recordar que o fator decisivo em qualquer comunicação continua a ser a autenticidade e a qualidade do conteúdo
  • Trabalhar lado a lado com os parceiros certos, especialistas em desenvolver e implementar a estratégia mais adequada a cada momento
  • Utilizar o poder das redes sociais para criar movimentos positivos de mudança
  • Abordar temas sociais, das problemáticas dos mais jovens (como a saúde mental, associada à ansiedade e depressão) ou da consciência ambiental.

 

O objetivo último das marcas continua a ser fazer negócios pelo que é muito importante encontrar um equilíbrio na comunicação que se faz. É sabido que um consumidor insatisfeito (com a vida) irá gastar muito mais dinheiro para tentar alcançar a satisfação e a vida perfeita. Seríamos tentados a investir numa comunicação que desse as respostas para tornar tudo melhor para o consumidor, mas devemos estar conscientes do impacto que essa comunicação tem na saúde mental da população. Cabe aos gestores de marca, optarem por uma comunicação socialmente responsável.

 

Através dos canais sociais conseguimos não só um diálogo entre marcas e consumidores, como um poderoso movimento que impulsiona as marcas a assumir novos padrões de comportamento corporativo e um maior compromisso com o propósito, e não apenas o lucro. É incontestável o papel que a media social tem no consumidor e na sociedade, resta-nos saber usá-la de forma positiva para todos.

 

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