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A ansiedade das paixões: a história de uma mulher à beira de um ataque de nervos

«É-me impossível viver uma paixão sem que isso arruíne a minha saúde», revela uma mulher que vive as relações à beira de um ataque de nervos. Conheça a sua história.

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Não tenho borboletas na barriga, nem pernas a tremer, nem a voz a embargar. Não, não tenho a sintomatologia geral de quem padece de paixoneta aguda. A voz prende, as pernas imobilizavam, o estômago revira-se. Tudo é crónico. Os melhores encontros são aqueles que ficam perto de uma casa de banho ou de uma saída de emergência.

 

As primeira saídas com alguém especial são uma espécie de sentença de morte. Têm tudo para correr mal. Mesmo que eu deseje que corra tudo bem, há algo em mim que sussurra tudo pode correr mal. Os dias anteriores são vividos com tal sofrimento que cancelo ou adio grande parte dos encontros.

 

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Aos 16 anos tive o meu primeiro namorado na categoria dos “sérios”, o Mário. Não havia comida que o meu estômago aguentasse. Perdi peso. Em vez de apaixonada as pessoas achavam que eu estava doente. Melhorou com o tempo e com o Mário. Mas o Mário não durou para sempre. A partir deste, mais uma meia dúzia de relacionamentos, enjoos e vómitos. E, para além do amor, havia o sexo. Não há performance que aguente tanta pressão. Qual o melhor sítio? Qual a melhor posição? Qual a melhor lingerie? Cumpria o desejo de forma funcional, pensando como desejava que tudo acabasse depressa e que eles tivessem gostado. Muito.

 

Não basta a vida amorosa e o seu tumulto, desde que me lembro, o que sobra da minha vida foi assoberbado por este destrambelhamento. O primeiro dia de aulas, em que passei a noite precedente a vomitar e a contar carneiros até onde sabia, os exames, as apresentações, o curso, a nova turma, o primeiro dia de trabalho, as reuniões importantes.  As primeiras coisas são avassaladoras.

 

E se andei à procura da pessoa certa, só me acontecia descobrir o quanto andava errada.  Tinha para mim o projecto de casar, ter filhos, ter uma carrinha familiar, dar o passeio dos tristes ao domingo na marginal da foz e assentar no parque da cidade piquenines ao sol. De todo o projecto só o sol vingou.

 

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O meu corpo não resiste à intempérie que avassala os meus pensamentos: que corra tudo bem, que não falhe nenhum projeto, que gostem de mim, que esteja tudo controlado. A perfeição não levou a lado nenhum, apenas abriu espaço para que o medo crescesse. Não há nada de romântico em fazer das tripas coração. Com a idade só tem piorado. Aos 42 anos tento suportar o caos do meu corpo e redefinir algum sentido para o dia a dia.

 

Enquanto não resolvo a mente, a nutricionista recomendou-me uma dieta melhor e a procura da causa da ansiedade. Espero vomitar menos nos próximos encontros. Tenho evitado situações que compliquem o que já é em mim emaranhado e para o qual não estou à altura, homens desligados que me deixam pendurada, sem notícias, sem norte e sem chão. Neste momento, quero o controlo, e nenhuma situação que me surpreenda. A vida pode ser melhor que isto, eu sei, mas por enquanto…

 

(Crónica baseada numa história verídica)

 

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