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Os programas dissimuladamente perigosos

A responsabilidade destes programas é das televisões que decidiram po-los no ar, em completo contraciclo com aquilo que a sociedade está a tentar almejar. As televisões continuam a ser as 'educadoras do povo' e têm responsabilidades, como qualquer órgão de comunicação social, seja na área de informação ou de entetenimento. E não passar programas discriminatórios é uma delas.

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Na SIC Radical passa um programa onde uma mulher ou um homem escolhe um parceiro conhecendo-o nu, numa sucessão de descoberta elevatória dos pés à cabeça. Literalmente. O avaliador, homem ou mulher, tem à sua frente seis portas que vão mostrando as pernas, depois os genitais, depois o torso e finalmente o corpo completo. Nestas descobertas alguns concorrentes vão sendo eliminados, até um ser escolhido. Ok. É mais um programa de televisão, passa a horas tardias, num canal por cabo, só vê quem quer, os concorrentes não são obrigados a tal e daí não vem mal ao mundo. É só degradante para eles mesmos. Homens e mulheres estão no mesmo plano. Não me choca a nudez, choca-me a desigualdade.

 

Pois é por isso que os novos formatos da SIC e da TVI – ‘Quem quer casar com o agricultor?’ e ‘Quem quer casar com o meu filho’? – me chocam verdadeiramente. É que são profundamente sexistas, colocando a mulher, e apenas a mulher, no papel de objeto que é escolhido como quem escolhe um naco de carne ou uma escrava. Senti-me insultada ao ver este aparentemente ‘inocente’ formato que até passa em diários antes dos noticiários da noite.

 

É ainda mais despropositado na altura em que se discute massivamente a condição feminina, nomeadamente a desigualdade que persiste na sociedade, os assustadores números de mortes por violência doméstica, que decorrem de uma sociedade ainda machista, os direitos iguais nos salários, etc.. Ou seja, fala-se de igualdade, tenta-se sensibilizar as pessoas para a necessidade de uma sociedade igualitária e depois aparecem programas de TV onde as mulheres são escolhidas por homens como se estivessem expostas num mercado. Incoerência.

 

Sim, estas mulheres que se sujeitam a ser escrutinadas e escolhidas à frente de uma plateia nacional estão lá porque querem. Mas também estou convencida de que se criassem um reality show onde ganhava o prémio a família de quem se suicidasse no programa também haveria candidatos. Não vamos por aí.

 

A responsabilidade destes programas é das televisões que decidiram po-los no ar, em completo contraciclo com aquilo que a sociedade está a tentar almejar. As televisões continuam a ser as ‘educadoras do povo’ e têm responsabilidades, como qualquer órgão de comunicação social, seja na área de informação ou de entetenimento. E não passar programas discriminatórios é uma delas. Não podem a uma hora passar um programa onde se debate os problemas da sociedade atual e se tenta perceber os alarmantes casos de mortes de mulheres e na hora a seguir fomentar a desigualdade com um programa machista. É esquizofrénico.

 

Estes programas são dissimuladamente perigosos. À laia da brincadeira, perpetuam este preconceito machista, ainda por cima a uma hora em que as crianças estão a ver televisão, nos diários que passam antes dos noticiários da noite. Passam a ideia de que uma mulher que saiba cozinhar para o marido e que esteja linda como uma princesa é que é uma boa esposa. E que só são boas mulheres para bem servirem o seu esposo. Errado.

 

Passo pouco cartão a reality shows, poucos até hoje me despertaram a atenção. Mas vê quem quer, tudo bem. Não me aquece e nem me arrefece. Mas estes dois não. Não é possível ficar indiferente. Fazem as ‘casas dos segredos’ desta vida parecerem formatos desejados. Em tempos tiraram o ‘SuperNanny’ do ar, por lesar direitos das crianças. Será que estes dois vão pelo mesmo caminho?

 

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