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100 anos da descoberta da insulina: «Antes, num período mais ou menos curto, as pessoas entravam em coma e morriam»

No Antigo Egipto, cerca de 1550 a.C., já se faziam referências a uma doença que se assemelha à diabetes. Uma doença que levava as pessoas à morte em dias, semanas ou meses. E foi assim até à descoberta da insulina, em 1921. Em ano de centenário, Luis Gardete Correia, endocrinologista e presidente da Fundação Ernesto Roma, traça-nos um olhar sobre o passado, o presente e o futuro daquela que é uma das mais importantes descobertas da ciência médica. Num país com uma taxa elevada de prevalência de diabetes, com mais de um milhão de pessoas diagnosticadas, o centenário vai ser celebrado com uma exposição itinerante por vários pontos do país.

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Em 2021, assinalam-se os 100 anos da descoberta da insulina. O que representou esta descoberta para a humanidade?

A descoberta da insulina constituiu uma das maiores e mais importantes descobertas da ciência médica. As pessoas com diabetes, até 1921, morriam ao fim de dias, semanas e, em alguns casos, meses. Com a insulina, passaram a viver com uma esperança de vida próxima da das pessoas sem diabetes. Recuperaram uma vida como a das pessoas sem diabetes, o que era impensável antes da descoberta.

 

Como era ser diabético antes de 1921. Descreva-nos a vida de quem nessa altura vivia com esta doença.

A diabetes tipo 2 tinha pouca expressão (esperança de vida curta, pouca obesidade e alimentação mais saudável e comedida) e era sobretudo a diabetes tipo 1 que se evidenciava. Como é característico desta clínica, as pessoas perdiam muito peso, bebiam muita água e ficavam sem forças, obrigando-as a recolher a casa e mesmo à cama. Ao fim de algumas semanas, ficavam completamente desnutridas e num período mais ou menos curto entravam em coma e morriam.

 

Falemos um pouco de história. A diabetes é uma doença que já era descrita no Antigo Egipto. Na história da Humanidade, quais são os principais marcos de avanço a assinalar no tratamento desta doença? E quem são os nomes mais relevantes que destaca nestas descobertas?

Destacaria, primeiro, três nomes que injustamente são frequentemente esquecidos. Eugene Gley, George Zuelzer, e Nicolae Paulesco que, no início do século XX, demonstraram que injetando extrato pancreático em cães pancreatectomizados (tornados diabéticos por extração do pâncreas) se reduzia a glicosúria (açúcar na urina). Foi, no entanto, pouco tempo depois, que os canadianos Banting e Best, sob a supervisão do escocês Macload e do bioquímico Collip, isolaram e obtiveram um extrato com insulina e, em janeiro de 1922, injetaram-na num jovem de 14 anos em estado comatoso, tendo-o recuperado em dias para a vida.

 

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Portugal está entre os países europeus que registam uma das mais elevadas taxas de prevalência da diabetes, com 13%, ou seja, mais de um milhão de pessoas. A que se deve isto?

Esta prevalência elevada está associada à adoção de estilos de vida de risco (excessos alimentares, alimentos ricos em gorduras e açucares), à crescente obesidade e ao sedentarismo. Outro factor muito importante e que contribui decisivamente, é o do envelhecimento da população portuguesa. Cerca de 27% da população com mais de 65 anos de idade tem diabetes.

 

Segundo dados do Observatório Nacional da Diabetes, nos últimos três anos, verificou-se um número muito elevado de novos casos de diabetes diagnosticados: mais de 600 novos casos de diabetes por cada 100 mil habitantes. O que é necessário fazer para travar este crescimento?

É necessário um programa nacional de prevenção da diabetes bem estruturado. É preciso ter a noção de que quando prevenimos a diabetes prevenimos muitas outras doenças, como a obesidade, doenças cardiovasculares, osteoarticulares e alguns tipos de cancro. A falta de visibilidade mediática a curto prazo dos resultados de um programa deste tipo tem sido talvez um elemento que tem desmotivado o respetivo investimento pelas autoridades de saúde. Os resultados obtidos não são imediatos, sendo apenas visíveis alguns anos depois de implementados.

 

Estamos a viver uma pandemia. Números do Observatório Nacional da Diabetes indicam que a taxa de hospitalização de pessoas com diabetes diagnosticadas com COVID-19 é de 43,3%, contra as 14,5% de quem não tem a doença. Porque aumenta bastante o risco para quem é diabético? 

Pessoas com diabetes com COVID-19 correm maior risco de pior prognóstico e mortalidade. Estas pessoas representam um grande segmento vulnerável da população com COVID-19. O pior prognóstico de pessoas com diabetes é a consequência da hiperglicemia, idade avançada, comorbidades e, em particular, hipertensão, obesidade, doença respiratória e doenças cardiovasculares, que contribuem para aumentar o risco nestas pessoas.

 

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A pandemia e o confinamento que vivemos veio agravar a doença? Quais têm sido as principais dificuldades dos diabéticos durante a pandemia?

Uma parte importante desta população é idosa e tem outras comorbilidades. A dificuldade no apoio médico neste campo, quando quase tudo está mobilizado para enfrentar a pandemia, constitui uma das dificuldades sentidas. A falta de exercício físico tem largo impacto na compensação da diabetes e na regulação do seu peso corporal. A repercussão psicológica tem marcado muito esta população como, naturalmente, noutras. O medo de contrair a doença, sabendo que a morbilidade e mortalidade é elevadíssima nas pessoas idosas e com diabetes, vai levando a desequilíbrios psicológicos graves.

 

Ainda relativamente ao centenário, quem em Portugal se destaca na luta contra a diabetes que deve ser enaltecido?

Destaco Ernesto Roma que, em 1926, cinco anos depois da descoberta da insulina, fundou a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP). A primeira associação criada no mundo para apoiar as pessoas com diabetes. Criou uma escola de formação de pessoas com diabetes para melhor gerirem a doença e, também, um centro de formação de técnicos de saúde naquela especialidade, que perdura até hoje como uma clínica modelar nos cuidados às pessoas com diabetes.

 

A propósito dos 100 anos da descoberta da insulina, está a decorrer uma exposição itinerante sobre a diabetes, “Uma Visita à História da Diabetes no Centenário da Descoberta da Insulina”. O que lá se pode encontrar?

Pode encontrar todo um percurso histórico desde o antigo Egipto até 1921 com a descoberta da insulina.  Uma referência especial à criação da APDP, a mais antiga associação de pessoas com diabetes no mundo. Exemplo de cuidados integrados e Educação/Formação das pessoas com diabetes ou das que os cuidam.

 

Falemos agora de futuro. Quais as descobertas que se afiguram próximas para tratar ou eventualmente curar esta doença?

A investigação nesta área é permanente e várias soluções implementáveis são espectáveis num futuro próximo. Em relação às insulinas investiga-se as smart insulins. Cientistas de todo o mundo estão trabalhando na administração de uma insulina inteligente em diferentes formas, como cápsulas e adesivos. Mas a pesquisa está ainda na sua infância – em muitos casos, os testes de insulina inteligente em humanos só estão programados daqui a vários anos.  No futuro, a nanotecnologia poderá trazer novidades com o aparecimento da insulina oral. Aparecerão novos sistemas de monitorização da glicemia mais sofisticados, com mais informação e conexões a outros equipamentos. Relativamente ao tratamento da diabetes tipo 2, aparecerão novas moléculas com o objetivo de aumentar o tempo de ação, combinação de fármacos e menos os efeitos adversos conhecidos. O aparecimento de novos sistemas de administração de insulina com monitorização permanente e injeção combinada de insulina e, finalmente, um verdadeiro pâncreas artificial.

É necessário e urgente o desenvolvimento de programas de investigação que irão conduzir a estratégias eficazes na prevenção da doença.

 

Links úteis:

Fundação Ernesto Roma

Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal

http://www.100anosinsulina.pt/

 

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